Trabalhar em empresas estrangeiras sem sair de sua cidade natal – Xangai – sempre foi a meta de Elena Xiong. No entanto, quando voltou à China após estudar nos Estados Unidos, ela descobriu que conseguir um desses cobiçados empregos seria mais difícil do que imaginava.

“Estou há um ano me candidatando a vagas, mas há menos postos disponíveis e mais concorrência do que antes”, explica. “Trabalho em uma empresa chinesa há dois anos. Embora ainda esteja procurando emprego em uma organização estrangeira, não sei se vou conseguir.”

Em 2023, o número de pessoas empregadas por empresas estrangeiras na China caiu para menos de 10 milhões pela primeira vez desde 2009. Trabalhar nessas organizações ainda é algo valorizado pelos chineses. O que mudou foi a postura das próprias empresas, que passaram a reconsiderar sua permanência no país — algo impensável há uma década.

Depois que a China passou a fazer parte da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, seu mercado começou a ser considerado o futuro dos negócios internacionais. No entanto, esse futuro agora parece menos certo – e a relação entre risco e recompensa para fazer negócios no país está mudando.

“As organizações costumavam vir para cá para crescer rapidamente e expandir sua participação de mercado”, afirma Adam Dunnett, secretário-geral da Câmara de Comércio Europeia na China. “Agora, os investimentos são cada vez mais defensivos. As empresas buscam garantir seu market share, obter inteligência de mercado, compreender melhor seus concorrentes ou ocupar nichos específicos.”

Investimento em xeque

Estatísticas do Ministério do Comércio da China apresentam um cenário misto para as organizações estrangeiras no país. Esse panorama reflete uma economia de duas velocidades: a demanda interna está baixa, mas as exportações estão crescendo rapidamente. 

Em 2023, o investimento estrangeiro direto na China foi de US$ 163 bilhões. É uma queda de 13,7% em relação a 2022, atingindo seu nível mais baixo em 30 anos. No entanto, no primeiro semestre de 2024, o número de empresas de investimento estrangeiro recém-registradas subiu para 26.870, um aumento de 14,2% em relação ao ano anterior.

Parte desse aumento no investimento pode ser atribuída ao processo de round-tripping, no qual o capital chinês é reinvestido no país por meio de Hong Kong. No entanto, estatísticas da Câmara de Comércio Europeia sugerem pouca mudança no cenário geral.

Em 2023, o investimento estrangeiro direto na China caiu 13,7% em relação a 2022. No entanto, no primeiro semestre de 2024, o número de empresas de investimento estrangeiro recém-registradas aumentou 14,2% em relação ao ano anterior

“O número de empresas associadas que operam na China tem se mantido relativamente estável ao longo dos anos”, diz Adam Dunnett, secretário-geral da Câmara. “A grande diferença está no número de estrangeiros empregados por essas empresas. Ainda não vimos um aumento desde que as restrições da covid-19 foram suspensas.” O número total de empregados por Empresas de Investimento Estrangeiro caiu de 12,2 milhões em 2021 para 9,88 milhões em 2023.

Saídas e novos investimentos no mercado chinês

Várias empresas fecharam suas operações completamente. Os escritórios de advocacia dos Estados Unidos presentes na China sofreram uma redução significativa, pelo menos dez grandes firmas encerraram suas atividades na região da Grande China (China continental, Hong Kong, Macau e Taiwan) desde junho de 2023. Muitos atribuem isso à mudança na demanda dos clientes ou à consolidação do trabalho em outras equipes asiáticas.

Em julho de 2024, a Microsoft pediu a cerca de 800 funcionários de pesquisa & desenvolvimento que considerassem uma realocação para fora da China. Posteriormente, em agosto, a IBM fechou duas grandes unidades de P&D, que juntas empregavam mais de 1.500 pessoas, retirando essas operações do país. Em outubro, a Fidelity International anunciou planos para cortar 500 empregos em um de seus centros de tecnologia e operações na cidade de Dalian, no norte da China.

No entanto, algumas empresas, como BASF e HSBC, estão reforçando seu compromisso com o mercado chinês. A Volkswagen é outro exemplo: em abril de 2024, a montadora anunciou um investimento de € 2,5 bilhões (US$ 2,68 bilhões) para expandir seu segmento de P&D na província de Anhui, no leste da China.

“As empresas estrangeiras que mais crescem na China estão concentradas em indústrias de alta tecnologia, no setor de serviços – especialmente P&D, design, serviços técnicos, empresariais e de informação – e na manufatura”, afirma Wang Dong, diretor executivo do Instituto de Cooperação e Compreensão Global da Universidade de Pequim.

empresas estrangeiras

Oportunidades de mercado para empresas estrangeiras

A influência das empresas estrangeiras na economia chinesa tem sido enorme. Organizações internacionais desempenham um papel fundamental: ajudar empresas chinesas a atingir seu atual nível de competitividade no cenário global. Além de ampliar o acesso a produtos internacionais, as políticas que exigiam que as empresas que entrassem no mercado chinês se tornassem parte de uma joint venture com uma empresa nacional ajudaram os parceiros locais a adquirir propriedade intelectual e expertise, o que acelerou seu crescimento.

Mas essa não é uma via de mão única, já que o tamanho e o alcance do mercado chinês oferecem oportunidades incrivelmente lucrativas para as organizações que vêm de fora. Além disso, as cadeias de suprimento concentradas e a enorme demanda transformaram a China em um alvo para qualquer empresa que tivesse a meta de crescer rapidamente.

Starbucks, McDonald’s e KFC, por exemplo, têm hoje uma forte presença no setor de alimentos e de bebidas do país. Muitas marcas de luxo encontraram lá um mercado receptivo a produtos de alto padrão e ao prestígio que eles trazem.

Pausa para reflexão

Nos últimos anos, empresas estrangeiras mudaram sua abordagem do mercado chinês por várias razões – particularmente porque a economia da China está enfrentando uma série de desafios. “Ajustes estratégicos feitos pelas multinacionais foram influenciados por mudanças no cenário competitivo e no mercado e pela renovação industrial, para não falar dos impactos da pandemia de covid-19”, diz Wang.

A desaceleração no mercado imobiliário contribui para a falta de demanda e de confiança dos consumidores. Além disso, paira uma ameaça crescente de capacidade excessiva de produção em setores importantes, como o automotivo (bem como uma possível desaceleração das exportações chinesas na gestão de Donald Trump nos Estados Unidos). Por isso, quando se avalia a relação entre risco e recompensa, a balança parece ter se deslocado do bônus (que antes era tão atraente para as organizações estrangeiras) para o lado do risco.

As mudanças políticas são outro fator que dificulta operações na China, se considerarmos as leis de transferência de dados transfronteiriços, que são difíceis para as organizações entenderem (e atenderem).

“Se você não consegue exportar seus próprios dados da China para alavancar sua rede global de dados, essa vira uma barreira para a sua inovação”, diz Dunnett. “O mesmo vale para tecnologias desenvolvidas localmente. Se você for obrigado a transferir tecnologia ou revelar códigos-fonte ou algoritmos, é improvável que traga essas tecnologias para a China. Por sua vez, se você tiver que usar a propriedade intelectual mais antiga ou local, de terceiros, perderá a vantagem competitiva.”

6 desafios de atuar na China

  • Queda na demanda e na confiança dos consumidores
  • Dificuldade de atender a leis de transferência de dados
  • Desalinhamento em leis de propriedade intelectual
  • Tensões geopolíticas com os Estados Unidos
  • Tendência ao protecionismo
  • Dificuldade de retirar capital da China

Ele acrescenta que houve melhorias significativas nas leis de propriedade intelectual na China. “Sua aplicação, porém, não atende às expectativas de metade de nossos membros”, acrescenta, sugerindo que ainda há espaço para melhorias.

Cenário geopolítico global

O cenário geopolítico global também se tornou mais difícil de navegar nos últimos anos. Os semicondutores usados na fabricação de chips, por exemplo, viraram um importante campo de batalha. “As tensões na relação entre os Estados Unidos e a China impactam o planejamento de longo prazo e as decisões operacionais das organizações”, diz Wang. “Os controles de exportação dos Estados Unidos sobre o setor de alta tecnologia da China dificultaram a operação das empresas.”

“Todos falam sobre a importância da globalização, dos mercados abertos e de evitar o protecionismo. Mas a realidade é que há muito mais foco na segurança econômica, com risco de isso se transformar em protecionismo”, diz Dunnett. “Nossos membros enfrentaram uma série de políticas desfavoráveis, como as focadas em autossuficiência e localização de dupla circulação, entre outras. Mas, à medida que há um aumento de políticas relacionadas à segurança ao redor do mundo, a China provavelmente sentirá que teve razão em introduzir essas políticas, portanto é improvável que as mude em breve. Esse é um grande desafio para organizações que operam lá – e não esperamos que isso mude tão cedo.”

Outra dificuldade para as empresas é transferir dinheiro para fora da China. O RMB (renmimbi, a moeda corrente da China) não possui plena conversibilidade, portanto muitas vezes é complicado o processo de retirar capital do país depois que ele entra no sistema.

Os custos gerais de negócios, conformidade e mão de obra também são uma preocupação crescente para as empresas. 10% dos entrevistados na pesquisa de membros do US-China Business Council 2024 citam aumentos dessas despesas como a principal restrição para o aumento da lucratividade na China.

Como se preparar para o mercado chinês

Apesar das dificuldades atuais, ainda há razões para otimismo. O aumento de operações baseadas na China ajudará a compensar as dificuldades causadas pelas barreiras culturais, assim como questões como a transferência de dados. Além disso, adotar uma perspectiva de longo prazo sobre o mercado pode oferecer mais estabilidade. A China já não é mais o caminho rápido para ganhar dinheiro que costumava ser. Abordá-la com a construção de bases sólidas e com uma estratégia específica para o país é necessário para ter sucesso.

Organizações que buscam entrar no mercado chinês devem ser proativas na defesa de seus interesses ao configurar joint ventures em setores onde isso é exigido. Considerando questões como direitos de voto, distribuição de lucros, compromissos e contribuições de cada parceiro, além de cláusulas de não-competição para evitar que parceiros locais iniciem negócios similares.

Uma vantagem competitiva de muitas organizações é sua criatividade e expertise em P&D. Por exemplo, o HSBC dá acesso ao mercado internacional de uma maneira que outros grandes bancos na China não oferecem. É provavelmente por esse motivo que decidiram manter sua presença no mercado chinês e adotar uma abordagem de longo prazo para desenvolver a empresa lá.

“A flexibilidade também é crucial em um mercado dinâmico como o da China”, diz Wang. “As organizações precisam estar preparadas para se adaptar a mudanças rápidas no mercado e alterações nas políticas.”

Aperto de mãos

Para muitas organizações globais, a certeza de que a China é o futuro está diminuindo um pouco, e há uma tendência geral negativa em atitudes e sentimentos em relação ao mercado do país. Mas, embora os desafios econômicos e geopolíticos atuais sejam significativos, ainda existem oportunidades para empresas dispostas a dedicar tempo e ajustar sua abordagem à segunda maior economia do mundo.

“Embora existam oportunidades de crescimento e expansão, o futuro das empresas estrangeiras na China pode ser complicado pelas dinâmicas do mercado, pela política global e pelas mudanças nas políticas internas”, diz Wang. “Por isso, para que as empresas estrangeiras prosperem nesse ambiente que está mudando, elas devem ser flexíveis, inovadoras e profundamente engajadas no mercado local.”

*Artigo escrito por John Reid, redator-colaborador da CKGSB Knowledge

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