Além de semáforos que pensam e arranha-céus que respiram, as cidades chinesas estão evoluindo rapidamente para sistemas inteligentes autônomos. Mas quão inteligente é inteligente demais?
Em um número cada vez maior de cidades chinesas, um ecossistema integrado de tecnologias — como inteligência artificial (IA), big data, computação em nuvem, internet das coisas (IoT), blockchain, gêmeos digitais e realidade aumentada (AR, na sigla em inglês) — opera em sincronia para sustentar o chamado “cérebro urbano”, o núcleo das cidades inteligentes atuais.
Por exemplo, esse cérebro urbano se apoia em um fluxo contínuo de dados para melhorar a gestão urbana e os serviços públicos. Além disso, ele permite o ajuste de semáforos em tempo real conforme o fluxo de veículos. Da mesma forma, regula a ventilação em edifícios altos conforme o clima. Por fim, viabiliza o agendamento de entregas por robôs com rodas em túneis subterrâneos dedicados à carga. Embora tudo isso pareça ficção científica, na prática já faz parte do cotidiano das cidades inteligentes na China.
“O desenvolvimento de cidades inteligentes é um passo crucial para os centros urbanos da China, que buscam transformação digital e ganhos de produtividade”, diz Naifei Sun, diretor associado sênior da SOM City Design Practice (divisão da SOM especializada em planejamento urbano e cidades inteligentes), em Xangai. “Ele estabelece as bases para um sistema de gestão urbana mais inteligente e eficiente.”
Ainda que os avanços da China nessa direção sejam notáveis, surgem também desafios relevantes — especialmente quanto à segurança de dados e à privacidade pessoal. Essas questões vêm sendo apontadas como obstáculos para a exportação da tecnologia chinesa de cidades inteligentes.
Visões diferentes, ambições compartilhadas
Essencialmente, uma cidade inteligente incorpora sensores, ferramentas digitais e tecnologias avançadas à infraestrutura urbana. Por meio delas, as cidades armazenam, processam e compartilham informações digitais, orientando a gestão urbana com base em dados.
Embora os números variem, um relatório da Deloitte (2018) estimava mais de mil cidades inteligentes em desenvolvimento no mundo, com a China liderando com cerca de 500 projetos-piloto, seguida por Estados Unidos, Europa e Índia.
Por exemplo, na China, cidades inteligentes não se restringem às megacidades — como Pequim, Xangai, Shenzhen e Hangzhou — e cada uma prioriza aspectos diferentes. “Dez anos atrás, muitas cidades chinesas exploravam apenas aplicações pontuais, como análise de tráfego e semáforos inteligentes”, explica Sun. A maioria das iniciativas ainda não é holística.
Xangai lidera com seu esforço de desenvolver uma “cidade inteligente de espaço-tempo quântico”, que Sun descreve como “a estrutura mais abrangente, sistemática e exploratória” do país. Conhecida como “135981”, essa estrutura integra gêmeos digitais para simular decisões de gestão, sensores onipresentes e conectividade em realidade virtual para replicar e operar espaços urbanos físicos.
Cidades inteligentes em qualquer escala
Em primeiro lugar, projetos de cidades inteligentes podem ocorrer em qualquer escala — de uma tela digital ou hospital a uma zona urbana inteira. Nos edifícios, por exemplo, aplica-se a modelagem da informação da construção (BIM, na sigla em inglês) com o objetivo de aprimorar projetos e otimizar operações. Além disso, segundo um relatório de 2025, 74,1% das construtoras chinesas adotam BIM em projetos principais. Por fim, “o BIM será fundamental para medir carbono incorporado e melhorar a eficiência energética e operacional”, afirma Kenneth Rhee, CEO da Integral VIM, consultoria especializada em BIM, sediada em Xangai.
Princípios fundamentais das cidades inteligentes são amplamente compartilhados no mundo todo. De São Francisco a Paris e Pequim, urbanistas concordam sobre a importância da gestão baseada em dados, do desenvolvimento de baixo carbono, da segurança e da eficiência. “A força dos diferentes atores varia entre países e continentes”, afirma o professor Martin de Jong, diretor científico da iniciativa Erasmus Dynamics of Inclusive Prosperity, da Erasmus University Rotterdam (Países Baixos). “Mas os vetores de mercado por trás são, em grande parte, os mesmos.”
As diferenças residem nos objetivos estratégicos. Um relatório da KPMG (2018) mostrou que, na China, cidades inteligentes priorizam a supervisão urbana, o fortalecimento da infraestrutura e a modernização estrutural da economia. Os EUA utilizam mais a infraestrutura de TI como motor de crescimento econômico, enquanto a Europa prioriza sustentabilidade e qualidade ambiental por meio de desenho urbano inteligente.
Um conjunto de tecnologias
Redes 5G, IA e outras tecnologias formam a espinha dorsal das cidades inteligentes chinesas. Sensores espalhados pela infraestrutura urbana captam grandes volumes de dados, processados via computação em nuvem e IA. Mas nem o 5G é suficiente: a edge computing (computação de borda), que processa dados próximos de onde são gerados, é essencial para tarefas críticas em tempo real.
O transporte inteligente exemplifica bem essa demanda. Por exemplo, a tecnologia V2X (vehicle-to-everything ou veículo para tudo) exige que os veículos processem dados locais de sensores para respostas imediatas, enquanto se comunicam com dados das vias para viabilizar a direção autônoma.
Tecnologias anteriores como big data e visão computacional estão consolidadas. Agora, modelos de linguagem de grande escala (LLMs) são cada vez mais utilizados na gestão pública. Em Pequim, uma plataforma de atendimento usa LLMs que respondem a mais de 100 consultas por hora, com 94% de precisão e o dobro da eficiência de operadores humanos, segundo o Beijing Daily, jornal estatal voltado à cobertura de políticas públicas e desenvolvimento urbano na capital chinesa.
Tecnologias como realidade virtual, AR e gêmeos digitais criam pontes entre o virtual e o físico, permitindo simulações de cenários para decisões mais informadas. A energia também é foco importante: com a urbanização e a proliferação de data centers de IA, o consumo energético disparou. Redes inteligentes e integração de fontes renováveis surgem como soluções para garantir segurança e eficiência energética.
Ao combinar IA com robótica — setor em que a China lidera —, surgem oportunidades em saúde, educação e transporte.
“A IA pode analisar enormes volumes de dados, mas é preciso que robôs executem ações físicas para que o sistema floresça”, diz de Jong.
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A política conduz, o mercado acompanha
Na China, as cidades inteligentes são conduzidas principalmente por iniciativas governamentais — diferente do modelo ocidental, mais orientado pelo setor privado. Os principais atores empresariais incluem fabricantes de hardware e software, operadoras de telecomunicação e empresas de internet. Concessionárias de energia e de computação em nuvem também participam, mas o motor central ainda é o Estado.
“Ao contrário dos Estados Unidos, onde as big techs dominam, e da Europa, onde há equilíbrio entre público e privado. Portanto, na China, o governo exerce influência muito maior sobre os rumos das cidades inteligentes”, afirma de Jong.
A China começou a apostar nesse modelo em 2008, quando a IBM popularizou o conceito. Em 2009, cidades como Pequim, Xangai e Cantão incluíram metas de cidades inteligentes em seus planos quinquenais. O conceito se alinhou perfeitamente à estratégia nacional de uma “China Digital”.
“As cidades inteligentes evoluíram a partir das cidades digitais”, explica Yin Chengzhi, vice-líder do Partido na Escola de Políticas Públicas da Universidade Tsinghua, em Pequim. “À medida que a infraestrutura de rede urbana avançava, governos e empresas passaram a desenvolver sistemas internos para ampliar a eficiência e a capacidade de gestão.”
O desenvolvimento seguiu três fases
A Fase 1.0 (2009–2018), de sistemas digitais isolados; a Fase 2.0 (2019–2023), de integração massiva de dados; e a atual Fase 3.0 (desde 2024), em que agências públicas se encarregam de definir propriedade e uso dos dados. Em junho de 2024, havia mais de 80 mercados de dados operando no país, refinando regras de precificação, avaliação e negociação.
Externamente, a China promove ativamente sua tecnologia de cidades inteligentes, especialmente no Sudeste Asiático, África e Ásia Central. Nos primeiros nove meses de 2024, firmou contratos de infraestrutura de US$ 142,99 bilhões com países da Nova Rota da Seda — 35% em infraestrutura digital, segundo a ChinaIRN.com.
[N.E: a Nova Rota da Seda é uma estratégia global lançada pela China em 2013 com o objetivo de promover a conectividade e o desenvolvimento por meio de infraestrutura e investimentos em diversos países. Ela combina o cinturão econômico da rota da seda (rotas terrestres) e a rota da seda marítima do Século XXI (rotas marítimas)]
Em Nusantara, futura capital da Indonésia, empresas como a Huawei fornecem serviços essenciais, como infraestrutura 5G. Países da Ásia Central também adotam essas soluções: em Astana, Cazaquistão, pontos de ônibus exibem em tempo real a chegada de veículos, viabilizados por sistemas da Dahua (empresa chinesa líder global em soluções de videomonitoramento e tecnologia de segurança), computação em nuvem da Huawei e financiamento do Banco de Exportação e Importação da China.
O dilema da vigilância nas cidades inteligentes
As cidades inteligentes aumentam a eficiência, mas não sem contrapartidas. Na China, o uso massivo de câmeras e aplicativos que captam dados coloca os cidadãos sob constante monitoramento. Sistemas como o SkyNet, de vigilância massiva desenvolvido pelo governo chinês, ajudam a inibir o crime, mas suscitam debates sobre liberdades individuais.
Uma pesquisa de 2020 da Escola de Administração Guanghua, da Universidade de Pequim, com apoio da empresa chinesa Megvii, especializada em reconhecimento facial e visão computacional, revelou que cidadãos chineses são os mais tolerantes ao uso de tecnologias de IA — como reconhecimento facial — entre os entrevistados de seis países (China, Japão, Singapura, Alemanha, Arábia Saudita e Estados Unidos). Curiosamente, foram também os que mais declararam se preocupar com privacidade em geral, mas os que menos se preocupavam com privacidade relacionada à IA. O estudo atribui isso à elevada confiança no governo.
Apesar da aceitação interna, há preocupações no exterior quanto à vigilância e às reais intenções das empresas chinesas. Segundo relatório do pesquisador Valentin Weber, da London School of Economics, o cérebro urbano chinês seria complexo demais para ser auditado por países importadores, gerando receios sobre seu potencial uso militar.
Riscos domésticos também são relevantes
De acordo com o Plano de Trabalho Digital da China para 2024 — documento oficial que estabelece diretrizes, metas e medidas prioritárias do governo chinês para o desenvolvimento digital do país —, o texto lista ameaças como vazamentos em larga escala, ataques maliciosos e uso indevido de dados. Como resultado, casos de roubo de dados de governos estão crescendo, e, por isso, as cidades passaram a reforçar sua cibersegurança.
“É preciso gerir os dados com classificação e proteção em camadas para garantir segurança. A criptografia deve proteger dados armazenados e transmitidos”, alerta Yin, da Tsinghua. Auditorias frequentes são recomendadas para evitar vazamentos e adulterações.
Outro risco é o aumento da desigualdade entre áreas urbanas e rurais. Enquanto cidades se modernizam rapidamente, zonas rurais tendem a ficar para trás.
Globalmente, a China disputa com o Ocidente a definição dos padrões das cidades inteligentes. “Europa e Estados Unidos seguirão seus próprios modelos”, diz de Jong. “Mas a China está tendo mais sucesso em exportar os seus.”
Desafios no horizonte das cidades inteligentes
Após superar as questões de dados, muitos urbanistas passaram a apontar as mudanças climáticas como o maior desafio às cidades inteligentes chinesas nos próximos anos.
De fato, “edificações e infraestrutura urbana consomem cerca de 40% da energia e respondem por 40% das emissões de carbono”, diz Rhee, da consultoria chinesa Integral VIM, especializada em BIM. Portanto, “será necessário melhorar significativamente o projeto, materiais, métodos construtivos e operação para reduzir o carbono incorporado e as emissões.”
Além da questão ambiental, outro desafio será garantir que todos os agentes envolvidos possam lucrar de forma sustentável com o avanço das cidades inteligentes. “É preciso construir modelos de negócio sustentáveis, que gerem benefícios tangíveis às cidades e viabilizem retornos econômicos para manter os investimentos”, conclui Sun.
O avanço da China rumo às cidades inteligentes continuará a depender, não apenas de inovação tecnológica, mas da geração de valor — e retorno — para todos os envolvidos. Seu sucesso, sem dúvida, ultrapassará fronteiras.