Em uma economia global afetada por juros altos, fragmentação geopolítica e crescimento desigual, uma constante permanece: o expressivo superávit comercial da China. Em 2024, esse superávit ultrapassou novamente os US$ 800 bilhões. Para Pequim, ele funciona como um estabilizador macroeconômico poderoso — ainda que complexo — no plano interno. Para o restante do mundo, representa fonte de preocupação, atrito e reposicionamentos estratégicos.

Por trás dos números, há uma realidade mais matizada. O superávit ajuda a sustentar a economia chinesa, marcada por uma demanda interna enfraquecida e instabilidade no setor imobiliário. Ao mesmo tempo, impulsiona a reestruturação das cadeias globais de suprimentos, o que tem provocado crescentes reações protecionistas. Com isso, tanto dentro quanto fora da China, aumenta a dúvida que paira sobre quão sustentável é manter um superávit elevado.

“Os formuladores de políticas provavelmente compreendem que um superávit comercial tão elevado não pode durar para sempre. Eles reconhecem a necessidade de tornar a China menos dependente das exportações e mais ancorada na demanda interna”, afirma Tianchen Xu, economista sênior da Economist Intelligence Unit, a divisão de pesquisa e análise do grupo The Economist. “Mas essa transição leva tempo — as instituições políticas, o regime fiscal e o funcionamento da economia ainda favorecem um modelo baseado na indústria.”

Estímulo ao crescimento doméstico

O superávit tornou-se um dos principais motores do crescimento interno da China nos últimos anos. Diante do consumo doméstico morno e da confiança fragilizada no setor privado, as exportações fortes funcionam como um amortecedor. Segundo dados da CEIC, empresa internacional de inteligência econômica e financeira, em 2024 as exportações líquidas contribuíram com 1,5 ponto percentual para o crescimento de 5% do PIB chinês.

“A economia doméstica da China não gera demanda suficiente para absorver toda a sua produção”, escreveram analistas do Rhodium Group em um artigo de 2024. “Para gerar crescimento, Pequim tem recorrido cada vez mais à exportação do excedente de produção industrial que o mercado interno não consegue absorver.”

O superávit não é novidade — o país registra saldo positivo há 30 anos —, mas ele cresceu de forma acelerada desde 2019, mais que dobrando em seis anos. Se antes o saldo era impulsionado por vestuário, móveis e eletrônicos de baixo valor, hoje setores estratégicos como veículos elétricos (EVs), componentes de energia verde e semicondutores lideram as exportações.

“A China se consolidou como fornecedora global em muitos setores estratégicos, reflexo de sua competitividade industrial”, afirma Xu. “Embora tenha havido uma onda de diversificação das cadeias produtivas — com investimentos no Sudeste Asiático, por exemplo —, a maior parte dos componentes-chave ainda tem origem na China.”

Sustentando a economia

Apesar das preocupações legítimas em relação ao superávit, seus efeitos sobre a economia doméstica têm sido positivos no curto prazo. O superávit deu a Pequim margem fiscal e monetária para compensar uma recuperação desigual pós-pandemia. E isso foi crucial. Ainda assim, o consumo das famílias, como proporção do PIB, permanece em torno de 38% — muito abaixo dos níveis observados em outras grandes economias. E os investimentos em imóveis caíram mais de 9% em 2024, após retração em 2023.

“A China se consolidou como fornecedora global em muitos setores estratégicos, reflexo de sua competitividade industrial”

Além disso, o superávit sustenta o emprego industrial em pólos exportadores como Jiangsu, Zhejiang e Guangdong, mantém a capacidade produtiva ativa e ajuda a estabilizar a moeda em meio à volatilidade nos fluxos de capital. A demanda constante por eletrônicos, EVs e produtos verdes tem amortecido o desemprego e a queda dos investimentos privados.

“O setor exportador teve papel importante para ajudar a China a enfrentar seus desafios econômicos”, diz Xu. “Contribuiu com cerca de um terço do crescimento do país em 2024 e é essencial para o mercado de trabalho e para a estabilidade social. Estima-se que gere mais de 100 milhões de empregos.”

O dilema da sustentabilidade

Apesar dos benefícios de curto prazo, o superávit elevado também traz distorções. O modelo orientado para exportação reduz o espaço para o consumo interno — mesmo compensando parte da queda. Com recursos direcionados à produção, e não à renda das famílias ou aos serviços, o consumo segue sendo um motor fraco de crescimento. E os empregos gerados não atendem às aspirações da juventude formada no ensino superior.

“A economia chinesa sofre com desequilíbrios estruturais, sobretudo no setor imobiliário, o que reduz a confiança do consumidor e aumenta a poupança de precaução”, escrevem os analistas do Rhodium Group. “Não é possível elevar o consumo sem ampliar a rede de proteção social — previdência, saúde e seguro-desemprego. A China tem avançado, mas a lacuna em relação aos países desenvolvidos ainda é grande.”

O superávit persistente também pressiona o renminbi (RMB) para cima, o que pode prejudicar a competitividade. Para mitigar isso, o banco central do país frequentemente intervém no câmbio, acumulando reservas estrangeiras e amortecendo o impacto monetário. Mas esse controle cambial, somado a incentivos à exportação, reforça o excesso de capacidade produtiva — especialmente em aço, materiais de construção e manufatura de baixo valor —, gerando alocação ineficiente de capital e retorno decrescente.

“Além do consumo fraco, guerras de preços entre empresas chinesas e o excesso de oferta pressionam os preços para baixo”, afirma Alfredo Montufar-Helu, conselheiro de multinacionais com base na China. “A rentabilidade caiu — não só porque a economia está mais fraca, mas também pela intensificação da concorrência local.”

Embora a China tenha sofisticado sua pauta exportadora nos últimos cinco anos, a dependência das exportações desestimula a inovação em muitas empresas que atuam com produtos de baixo custo. Focadas em escala, elas postergam a transição para uma economia mais sustentável, baseada em produtividade, tecnologia e serviços avançados.

Tensões comerciais e fricções estratégicas

A expansão das exportações chinesas aumentou sua presença global — em muitos casos, de forma dominante.

“Superávits comerciais não surgem do nada”, diz Montufar-Helu. “Há dois lados: produtores na China com desejo de exportar e consumidores dispostos a comprar. Com produtos competitivos, a China conquistou fatias de mercado cada vez maiores.”

O resultado tem sido uma intensificação das barreiras comerciais, motivadas por preocupações econômicas, estratégicas e políticas. Os Estados Unidos, que mantêm elevado déficit bilateral com a China, endureceram sua posição nos últimos governos. A Casa Branca, sob Biden, prorrogou tarifas iniciadas no governo Trump com base na Seção 301, elevou taxas sobre veículos elétricos e painéis solares chineses em 2024 e continuou limitando o fluxo de tecnologia para a China, valendo-se do Chips and Science Act – seu instrumento de política industrial e segurança nacional que restringindo o fluxo de tecnologia avançada para o gigante asiático e incentiva a fabricação nos EUA de componentes estratégicos, especialmente no setor de microchips. O atual governo Trump foi ainda mais agressivo, com o tarifaço.

Na União Europeia (UE), montadoras enfrentam a concorrência dos EVs chineses e pressionam o bloco por medidas protetivas, alegando subsídios injustos e falta de reciprocidade. Em 2024, a Comissão Europeia abriu investigação por subsídios em relação aos EVs e produtos verdes da China. Até a Alemanha, tradicional defensora do comércio com o país, adotou postura mais crítica após suas montadoras perderem participação para concorrentes chineses.

“Veremos mais protecionismo direcionado a produtos específicos da China”, afirma Xu. “A UE está especialmente atenta, inclusive ao desvio de comércio — produtos barrados pelos EUA que acabam sendo redirecionados a mercados terceiros.”

“Há dois lados: produtores na China com desejo de exportar e consumidores dispostos a comprar. Com produtos competitivos, a China conquistou fatias de mercado cada vez maiores”

Alguns analistas, no entanto, acreditam que o endurecimento chegou tarde para proteger certos setores. “As células fotovoltaicas são um exemplo: a UE só reagiu depois que a cadeia produtiva já estava dominada”, escreveram os analistas do Rhodium Group. “Com os automóveis, a resposta foi mais rápida porque se trata de um setor estratégico.”

Relações com o Brasil e países da África

Fora do Ocidente, países com laços históricos com a China também buscam equilibrar a integração às cadeias chinesas com a proteção de suas indústrias emergentes. O Brasil, por exemplo, voltou a exigir que uma parte mínima dos componentes e serviços usados em projetos de energia e infraestrutura seja produzida no próprio território nacional.

A África do Sul manifestou preocupação com a entrada massiva de aço e máquinas chinesas. E a Índia, que tem relação mais tensa com a China, adotou tarifas e incentivos produtivos (PLIs) para fortalecer os setores solar, eletrônico e de EVs.

“Países com histórico protecionista, como o Brasil, podem chegar a abrir investigações compensatórias, apesar da melhora nas relações bilaterais”, diz Xu. “Mas, com exceção dos EUA, nenhum país tende a adotar tarifas generalizadas sobre produtos chineses.” 

Essas políticas — vistas como nacionalismo econômico ou tentativas pragmáticas de reequilibrar relações — representam um afastamento claro do livre-comércio que favoreceu a expansão industrial da China nas últimas décadas.

Impactos sobre os negócios

O crescente superávit chinês impacta não apenas as políticas macroeconômicas e a diplomacia, mas também decisões estratégicas de empresas chinesas no exterior e multinacionais na China.

Na Europa, montadoras chinesas como BYD e SAIC enfrentam barreiras legais e regulatórias. Em 2024, a Comissão Europeia iniciou uma investigação contra várias montadoras chinesas por supostos subsídios estatais, o que atrasou entradas no mercado e incentivou planos de montar fábricas locais para evitar tarifas.

“Com exceção dos EUA, nenhum país tende a adotar tarifas generalizadas sobre produtos chineses” 

No setor solar, empresas como LONGi Green Energy e Trina Solar também enfrentam barreiras significativas. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram impostas regras de anticircunvenção — medidas legais destinadas a evitar que exportadores contornem tarifas ou restrições comerciais — para produtos montados no Sudeste Asiático. Já a Índia adotou tarifas básicas de importação para incentivar a produção local. 

Como consequência, muitos exportadores chineses de tecnologia verde passaram a instalar fábricas ou linhas de montagem em países terceiros, estratégia que, embora permita o acesso a mercados, reduz parte da vantagem de custo que tinham originalmente.

“Daqui em diante, empresas chinesas devem ampliar investimentos diretos em fábricas no exterior”, diz Xu. “A produção local tende a conter o avanço das exportações.”

Por outro lado, multinacionais na China enfrentam um ambiente mais complexo, com desequilíbrios econômicos e tensões geopolíticas. No setor de consumo, marcas como Apple, Nike e Adidas sofrem com a desaceleração da demanda e a valorização de marcas locais. Nos setores industrial e tecnológico, empresas como Intel, Siemens e Bosch também enfrentam desafios: de um lado, um mercado atrativo; de outro, maior escrutínio, regulações mais rígidas e pressão para localizar cadeias produtivas. Isso tem levado à redução de riscos, com operações isoladas ou investimentos mais cautelosos.

Perspectivas e riscos

O impulso exportador da China enfrenta riscos sérios. A economia global está desacelerando, os juros seguem altos nas economias desenvolvidas e o espaço fiscal está encolhendo. Se a demanda externa — especialmente dos EUA e da UE — enfraquecer, a máquina exportadora chinesa pode desacelerar de forma brusca, com efeitos sobre o emprego nas regiões industriais e pressão adicional sobre o já frágil mercado de trabalho.

“A economia da China é, sem dúvida, vulnerável a uma queda na demanda global. O mercado de trabalho é o elo mais sensível”, diz Xu. “Nessa situação, devemos observar não só o desemprego, mas também o subemprego — pessoas com trabalho, mas com pouca carga de trabalho.”

A queda nas receitas de exportação também reduziria a entrada de moeda estrangeira, dificultando a condução da política monetária e podendo enfraquecer o Renminbi.

Com isso, o perfil do superávit comercial chinês deve evoluir nos próximos anos. Embora siga elevado em termos globais, dificilmente continuará crescendo no mesmo ritmo, especialmente diante da pressão internacional e da possível retomada do consumo interno.

“Espero que as exportações percam peso gradualmente no PIB”, diz Xu. “Mas não vejo a China se tornando um país deficitário — a vantagem competitiva do setor manufatureiro ainda parece inabalável.”

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CKGSB Knowledge é uma publicação reconhecida na Ásia, na América do Norte e na União Europeia pertencente a a Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), uma escola de negócios de renome, sediada em Pequim, na China.