Quando falamos de tecnologia, costumamos olhar para software, inteligência artificial, plataformas digitais e dados. Mas há uma camada mais profunda, e muito mais silenciosa, que sustenta tudo isso: os materiais críticos. Terras raras não são um detalhe técnico da economia global; são um pilar estratégico do poder tecnológico no século 21. E é exatamente aqui que a relação entre Brasil e China tende a se tornar mais intensa, mais assimétrica e mais decisiva nos próximos anos.

(Abrimos parênteses) 

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos — como neodímio, lantânio, cério e disprósio — fundamentais para a tecnologia moderna. Elas estão presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, semicondutores, equipamentos médicos, sistemas de defesa e, cada vez mais, em infraestruturas de inteligência artificial. Não são “raras” pela escassez geológica, mas pela complexidade técnica, ambiental e industrial envolvida na sua extração, separação e refino. O verdadeiro valor não está no minério bruto, mas na capacidade de transformá-lo em insumo tecnológico de alta precisão.

Posição da China

  • Reservas estimadas: ~44 milhões de toneladas
  • Produção anual: ~60–70% da produção global
  • Capacidade de refino e separação: >85% da capacidade mundial
  • Posição estratégica: líder absoluto e estrutural

Posição do Brasil

  • Reservas estimadas: ~20–22 milhões de toneladas
  • Produção anual: residual / quase irrelevante globalmente
  • Capacidade de refino: muito limitada
  • Posição estratégica: potencial alto, exploração baixa

O ponto cego do debate: reservas não são poder

Aqui está a distinção central que a China entendeu cedo: terras raras só geram poder quando inseridas em uma cadeia industrial completa. Extração sem refino é dependência. Refino sem aplicação industrial é vulnerabilidade. Aplicação sem planejamento de longo prazo é improviso caro.

Por isso, o mapa das jazidas conta apenas metade da história. A outra metade está no domínio de processos químicos complexos, no controle ambiental dessas operações, na formação de engenheiros e cientistas, na proximidade com a indústria usuária e na capacidade de sustentar investimentos de longo prazo — mesmo quando o retorno não é imediato.

(Fechamos parênteses) 

O pulo do tigre, não do gato

A tecnologia não começa no código, começa no chão. Começa no domínio sobre recursos estratégicos, na capacidade de processá-los, refiná-los, integrá-los à indústria e conectá-los a uma visão de longo prazo. Terras raras, para a China, nunca foram apenas commodities. Sempre foram ativos geopolíticos, industriais e tecnológicos.

O Brasil, por outro lado, ainda trata esse tema majoritariamente sob a lógica da extração. Temos reservas relevantes, diversidade mineral e posição estratégica. Mas seguimos operando, em grande parte, com uma mentalidade de fornecedor de matéria-prima — e não de arquiteto de cadeias de valor. 

Me desculpem os brasileiros, mas o Brasil não está mal posicionado geologicamente. Está subposicionado estrategicamente. A pergunta relevante não é “onde estão as jazidas?”, mas “em quais etapas da cadeia queremos competir?”. A resposta a essa pergunta define se o país será apenas um fornecedor em uma economia tecnológica liderada por outros, ou um co-autor das próximas cadeias globais de valor.

O que a China realmente entende sobre terras raras

Terras raras não são raras pelo volume, mas pela complexidade de extração, separação e processamento. O verdadeiro valor não está no minério bruto, mas na capacidade tecnológica de refinamento, na propriedade intelectual dos processos químicos, na integração com a indústria de alta precisão e no controle ambiental e regulatório dessas etapas.

A China investiu décadas construindo esse domínio. Criou clusters industriais integrados, desenvolveu know-how próprio, aceitou custos ambientais no passado, hoje convertidos em vantagem regulatória, e conectou terras raras a setores estratégicos como semicondutores, baterias, veículos elétricos, defesa, energia renovável e inteligência artificial. O resultado é claro: mesmo países com reservas minerais dependem da China para transformar esses recursos em componentes tecnológicos utilizáveis.

Há também um entendimento político sofisticado. Terras raras são tratadas como instrumento de política industrial e diplomacia econômica. Exportações, joint ventures e parcerias seguem critérios estratégicos, não apenas comerciais. O recurso natural vira alavanca de negociação, influência e coordenação global.

O Brasil e o risco de repetir um padrão antigo

O Brasil está diante de uma oportunidade rara, tanto quanto as terras, e de um risco igualmente grande. A intensificação da relação com a China em tecnologia e terras raras pode nos levar a dois caminhos muito distintos.

No primeiro, repetimos a história: exportamos matéria-prima, importamos tecnologia, capturamos pouco valor e seguimos dependentes. No segundo, usamos a relação com a China como uma escola estratégica: aprendemos sobre planejamento industrial, integração tecnológica, governança de longo prazo e construção de capacidades nacionais.

Isso exige uma mudança de mentalidade profunda. Não basta mapear reservas. É preciso perguntar:
— Onde está o valor ao longo da cadeia?
— Quais capacidades industriais precisamos desenvolver localmente?
— Como conectamos mineração, ciência, tecnologia, indústria e formação de talentos?
— Que tipo de parceria queremos — e em quais termos?

Sem essas perguntas, qualquer aproximação será desequilibrada.

Tecnologia não é neutra — e recursos também não o são

Há um componente humano e político que muitas vezes evitamos discutir. Terras raras não são apenas insumos industriais; atualmente e cada vez mais intensamente elas moldam decisões sobre soberania, desenvolvimento regional, impactos ambientais e inclusão econômica. A China compreendeu que controlar recursos estratégicos exige também controlar narrativa, governança e tempo.

O Brasil ainda oscila entre o imediatismo econômico e a falta de coordenação estratégica. Projetos avançam de forma fragmentada, sem uma visão clara de como se conectam a uma estratégia tecnológica nacional. Falta-nos o que a China construiu com disciplina: coerência entre Estado, indústria, ciência e capital.

E aqui está talvez o aprendizado mais difícil: não se trata de copiar a China, mas de aprender com a sua lógica. Longo prazo não é discurso; é método. Planejamento não é rigidez; é direção. Parceria não é subordinação; é clareza de interesses.

A troca Brasil–China que está por vir

A intensificação da relação entre Brasil e China em tecnologia e terras raras é inevitável. A transição energética, a corrida por IA, a reindustrialização seletiva e a fragmentação das cadeias globais de suprimento empurram os dois países para uma interação mais profunda.

A pergunta central não é se essa troca vai acontecer, mas como.
Será uma relação baseada apenas em volume e preço? Ou uma relação baseada em aprendizado, codesenvolvimento e construção de capacidades?

A China já sabe o que quer. O Brasil ainda precisa decidir! 

E talvez essa seja a reflexão mais importante: países não perdem relevância por falta de recursos, mas por falta de visão. Terras raras são finitas. Tempo estratégico também. Estamos preparados para operar essa relação como protagonistas — ou continuaremos reagindo, enquanto outros desenham o futuro?

Executiva de tecnologia, conselheira e especialista em gestão e governança