A presença da China no Nordeste do Brasil deixou de ser apenas um capítulo discreto da globalização e está se tornando um dos movimentos mais estratégicos da economia brasileira em sua era contemporânea. Ao longo da última década (e com mais intensidade após 2020) os investimentos chineses na região passaram por uma transformação relevante: saíram de um foco concentrado em energia e recursos naturais para uma atuação muito mais diversificada, envolvendo infraestrutura, tecnologia, sustentabilidade e até cooperação institucional na área da saúde, ajudando diretamente as pessoas daquela região. Investimento alto, esse que chega em média R$ 220 bilhões ao longo de todo o projeto.

Um novo papel do Nordeste na estratégia chinesa

Essa mudança não aconteceu por acaso. O Nordeste reúne uma combinação rara de fatores: posição geográfica privilegiada para exportações pelo Atlântico, abundância de recursos naturais, forte potencial em energias renováveis e políticas regionais coordenadas, especialmente por meio do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste. Esse conjunto transformou a região em um território estratégico para a expansão global da China.

Energia renovável como ponto de partida

Historicamente, o primeiro grande eixo de atuação chinesa no Nordeste foi o setor energético. Empresas chinesas ajudaram a impulsionar a expansão de parques eólicos e solares, principalmente em estados como Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.

Um marco importante foi a instalação da fábrica da Goldwind na Bahia em 2023, a primeira da empresa fora da China, com investimento de em média R$ 100 milhões, além de gerar cerca de 100 empregos diretos e até 5 mil indiretos na cadeia produtiva, girando a economia local e nacional.

A região Nordeste já registra picos de geração eólica superiores a 19 mil MW, capazes de suprir mais de 100% da demanda regional em determinados momentos, consolidando-se como um dos principais polos de energia limpa da América Latina.

Sustentabilidade urbana e renovação

Com avanço da energia renovável, começam a surgir no Nordeste iniciativas voltadas à sustentabilidade urbana e inovação, muitas delas inspiradas em experiências da China no desenvolvimento de cidades inteligentes.

Esses projetos têm como intuito usar tecnologias para melhorar a gestão urbana, com alguns sistemas de monitoramento, iluminação pública, mobilidade integrada e dados para planejamento urbano. Um bom exemplo de cidade é Shenzhen, que se tornou modelo com seu transporte público 100% elétrico.

Algumas dessas iniciativas que o Nordeste vem tendo já aparecem em algumas capitais como Fortaleza e Recife, em projetos de cidades inteligentes que já utilizam alguns sensores urbanos, centro de controle, expansão de infraestrutura voltada a energias limpas. Os polos tecnológicos também vêm ganhando espaço, como o Porto Digital, conseguindo conectar inovação, startups e soluções voltadas para a gestão urbana, tendo grandes empresas parceiras do ramo como a Huawei, uma das gigantes da tecnologia.

Próximo salto: Infraestrutura e logística

A relação entre China e Nordeste está ligada a um movimento bem claro: depois de investir em energia, o foco passa a ser como otimizar a produção e reduzir o custo de exportação da região.

Ou seja, investimentos em projetos que faça com que o processo seja mais produtivo, dando destaque em áreas agrícolas, minerais e energéticas para os principais portos no Nordeste. Quanto mais eficiente a logística, mais competitivo fica o produto brasileiro no mercado internacional, principalmente quando falamos de Ásia.

Rodovias, ferrovias, portos e centros logísticos entram nessa iniciativa de modernização, além de possíveis parcerias para concessões e financiamento de obras estruturantes. Portos de Suape (PE), Pecém (CE) e Aratu (BA) também estão entrando em pauta para uma possível expansão para cargas industriais e energéticas, facilitando a logística.

Já colocando os planos em prática, o projeto da Ponte Salvador–Itaparica é uma das maiores obras de infraestrutura em planejamento no Brasil e tem forte ligação com empresas chinesas, um investimento em torno de R$ 12 bilhões sendo um projeto estruturado por parceria público-privada. Empresas como China Communications Construction Company estão fazendo parte do grupo de empresas chinesas envolvidas nesse projeto que tem como objetivo entregar a ponte estaiada de cerca de 12,4 km ainda no ano de 2026.

Outro elemento importante são os mecanismos de financiamento, como o Fundo China-Brasil de Cooperação para Expansão da Capacidade Produtiva, que foi criado para apoiar projetos de infraestrutura, energia e logística no Brasil. Ele não financia apenas uma obra específica, mas funciona como uma plataforma para viabilizar grandes projetos estruturantes com participação de empresas chinesas e brasileiras.

Tecnologia e inovação em crescimento

Esse movimento de tecnologia e inovação no Nordeste está ligado a uma mudança mais estrutural: a região começa a entrar em cadeias globais de inovação, e não apenas consumir tecnologia pronta.

Falando sobre o crescimento da atuação chinesa na região, vemos algumas frentes:

  • Cidades inteligentes e digitalização urbana. Aqui a inteligência artificial chinesa começa a contribuir para a gestão de dados e monitoramento.
  • Indústria e inovação aplicada. O foco chinês não é só em tecnologia digital, mas também em automação industrial, energia inteligente e integração de cadeias produtivas, como já se vê no Porto Digital.
  • Telecomunicações e conectividade. O exemplo vem de empresas como Huawei, que atua na infraestrutura de 4G e 5G, em data centers e em soluções de conectividade. Esse é o tipo de tecnologia base para cidades inteligentes, inclusive, o primeiro item da lista, porque permite integrar sensores urbanos, transporte, segurança e serviços públicos em tempo real.

ByteDance impulsiona inovação, empregos e o protagonismo digital

A ByteDance, dona do TikTok vem fazendo um grande investimento no Nordeste do Brasil representando uma oportunidade histórica de transformação econômica e tecnológica para a região, implantando no Complexo do Pecém um grande data center. O projeto faz com que o Brasil ocupe lugar importante no hub global de infraestrutura digital, capaz de atender demandas internacionais de processamento e armazenamento de dados, inclusive de plataformas como o próprio TikTok. O investimento é em média de R$ 50 bilhões.

A escolha pelo Ceará é estratégica, pela forte presença de energia renovável e pela conectividade internacional por meio de cabos submarinos. Isso não apenas aumenta a competitividade do Brasil no cenário global em geral, como também impulsiona a modernização da infraestrutura local.

Além disso, os impactos se refletem diretamente na economia, gerando empregos mais qualificados, desenvolvendo mão de obra e maior circulação de renda na região, além de contribuir com a redução de desigualdade regional, tendo em vista que a maioria dos investidores se concentravam no Sudeste do país, consolidando o Nordeste como um protagonista na economia digital do futuro.

Energia e mobilidade sustentável ganham força

Além da ByteDance, outras grandes empresas chinesas assumem o papel central na transformação econômica do Nordeste, como State Grid e a BYD, que mesmo atuando em áreas diferentes, são complementares.

A State Grid é hoje uma das principais responsáveis por estruturar a base energética da região. Um dos seus maiores projetos recentes é a construção de uma mega linha de transmissão que liga o Nordeste ao Centro-Oeste, com investimento de cerca de R$ 23 bilhões. Essa infraestrutura permite distribuir energia renovável produzida no Nordeste para outras regiões do Brasil, beneficiando milhões de pessoas, além do sistema elétrico nacional. A empresa já anunciou outros grandes investimentos, com projetos que chegam a R$ 18 bilhões em novas linhas e em expansão da rede elétrica, firmando sua presença como uma das maiores investidoras do setor no Brasil.

Já a BYD por sua vez atua na industrialização e na transição energética. A empresa está construindo um grande complexo industrial em Camaçari, Bahia, no antigo polo da Ford, também com grandes investimentos, um valor entre R$ 5,5 bilhões e R$ 6,5 bilhões. A fábrica será focada na produção de carros elétricos e híbridos, com capacidade que pode chegar a centenas de milhares de veículos por ano, além de gerar de 10 mil a 20 mil empregos diretos e indiretos na indústria. Esse projeto coloca o Nordeste no mapa da indústria automotiva do futuro com energia limpa.

Enquanto a State Grid garante a infraestrutura energética em escala continental, a BYD impulsiona a indústria e a inovação tecnológica. Juntas, elas ajudam a transformar a região em um polo estratégico tanto de energia quanto de produção industrial avançada e crescimento social como um todo.

Tendências recentes: uma mudança qualitativa

O período entre 2022 e 2026 mostra uma grande mudança nos investimentos chineses. Não se trata apenas de aumento de volume, mas de uma transformação na natureza dos projetos.

Há uma ênfase maior em sustentabilidade, inovação e impacto social, além de uma integração crescente com estratégias de desenvolvimento regional de maneira geral em longo prazo.

Uma parceria em nova fase

A relação entre China e Nordeste brasileiro está entrando em uma fase mais madura e estratégica. A região deixou de ser apenas um destino de investimentos pontuais para se tornar um espaço central na lógica de expansão econômica chinesa.

Projetos como a Ponte Salvador–Ilha de Itaparica mostram que esses investimentos vão além de números: eles têm potencial para redesenhar territórios, conectar economias e influenciar o futuro de milhões de pessoas.

O Nordeste, nesse contexto, passa a ocupar um lugar cada vez mais relevante no cenário global, não apenas como fornecedor de recursos, mas como protagonista de um novo ciclo de desenvolvimento.

Marina Miranda é diretora institucional da IEST Group e senior manager do CECPS (Centro de Serviços Econômicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola). Também é embaixadora do Beyond Expo- Macau.