Ver um aluno usar um aplicativo de edtech com inteligência artificial já não é novidade. A professora Iris Yin, de Xangai, vê isso diariamente.

Ela conta que os estudantes agora recorrem à IA com frequência quando fazem as tarefas da escola. “Tecnologias de edtech, como aplicativos que usam reconhecimento de fala e tutoria personalizada, são amplamente utilizadas quando os alunos estudam sozinhos”, diz.

Em todo o mundo, professores como Iris estão se acostumando à crescente penetração da tecnologia dentro e fora da sala de aula. A tecnologia educacional – ou edtech – traz soluções que combinam o uso de hardware, software e teoria educacional para facilitar o aprendizado. “O setor de edtech da China começou a se expandir entre 2013 e 2015”, diz Eva Yuan, cofundadora da Teenibear, uma empresa de Pequim especializada em hardware de aprendizado inteligente. “Foi quando surgiram muitas startups oferecendo plataformas de aprendizado online, conteúdo digital e ferramentas de ensino interativas.”

Desde então, edtech se tornou um termo abrangente, usado para designar uma ampla gama de tecnologias projetadas para complementar vários aspectos do ensino e da aprendizagem. Os exemplos vão desde realidade aumentada (AR) e realidade virtual (VR) até dispositivos de Internet das Coisas (IoT) e computação em nuvem.

China: um dos principais mercados de edtech do mundo

O mercado de edtech cresceu exponencialmente na última década. A China, nesse cenário, surgiu como um dos principais players e centros de inovação.

Segundo a China Insights Consultancy, o mercado de hardware educacional valia ¥ 43 bilhões (US$ 6 bi) em 2023. A previsão é que chegue a ¥ 79 bilhões (US$ 11 bi) até 2028. Um relatório da GlobalData indica que a taxa composta de crescimento anual (CAGR) do mercado de edtech na China ultrapassará 6% entre 2023 e 2028.

Segundo Yuan, as três categorias mais populares de hardware educacional inteligente no mercado chinês são tablets de aprendizado online, canetas-dicionário inteligentes e players de áudio portáteis para aprender inglês. 

Esses dispositivos transformam a educação, especialmente em casa. Permitem que estudantes aprendam de forma autônoma, façam perguntas e interajam com tutores virtuais baseados em IA.

Em um país marcado pela repetição e pela cultura de memorização (“cramming”), alunos insatisfeitos buscam experiências de aprendizado mais personalizadas e dinâmicas. Além disso, os produtos de edtech tornaram o aprendizado remoto não apenas possível, mas também mais atraente.

No entanto, a edtech pode ser uma faca de dois gumes. Há preocupações relacionadas à falta de concentração dos alunos, ao estresse mental causado pelo isolamento e até mesmo ao impacto na visão. Além disso, no sistema educacional chinês, que ainda depende amplamente da memorização, há o risco de que a tecnologia substitua o papel dos professores.

Apesar dessas questões, a maioria dos pais aprova a adoção da tecnologia. Xuehong Guo, mãe de dois filhos em Hangzhou, no leste da China, ficou impressionada com um tablet educacional que comprou para seus filhos. “Minha maior surpresa foi que os tutoriais parecem reais, como se fossem dados por um professor experiente. Não são rígidos nem mecânicos”, afirma Guo.

Startups entram no jogo

De modo geral, as gigantes chinesas de tecnologia são conhecidas por identificar rapidamente oportunidades de monetização. Nesse contexto, sua abordagem à edtech não foi diferente. A iFlytek, gigante de tecnologia da informação sediada em Hefei, é considerada um dos “Quatro Dragões da IA” da China. Atualmente, seu portfólio inclui tablets, canetas-dicionário e tradutores portáteis.

Ao mesmo tempo, há startups que estão liderando o desenvolvimento do setor.
A Zuoyebang, voltada ao segmento K-12, embarca em seus tablets aplicativos com IA.
Essas soluções permitem, por exemplo, corrigir e aprimorar tarefas automaticamente, simulando a atuação de um tutor virtual.

Por fim, provedores tradicionais de cursos online, como a Huohua Siwei, estão migrando para um modelo mais tecnológico. Eles agora oferecem educação voltada para habilidades como programação, treinamento em discursos e aprendizado de Go — considerado o mais antigo jogo de tabuleiro do mundo e muito popular na Ásia.

Até 2021, as empresas de edtech chinesas recebiam um fluxo constante de investimentos de capital de risco. Mas o cenário mudou, e essas empresas foram pegas pela nova regulação

Gigantes da área de reforço escolar

Antes do surgimento desses novos líderes, o setor de edtech na China era dominado por gigantes do reforço escolar, como New Oriental e TAL. Naquele momento, essas empresas exerciam forte influência sobre o ensino privado e o mercado de tutoria acadêmica.

No entanto, essa hegemonia durou pouco. Em julho de 2021, o governo chinês lançou a política de “dupla redução” para diminuir a carga de deveres e a pressão sobre os alunos do ensino fundamental e médio. Como resultado, o cenário do setor mudou profundamente.

Até 2021, as empresas de edtech chinesas recebiam investimentos constantes de capital de risco. Isso permitiu atrair talentos, desenvolver produtos e aprimorar suas redes de fornecimento. Mas o cenário mudou. As empresas, antes em ascensão, foram atingidas pelas novas regulamentações. Com a política de “dupla redução”, empresas como New Oriental e Yuanfudao perderam bilhões em valor de mercado. O setor de reforço escolar foi fortemente reduzido.

Dado o forte foco da cultura chinesa no desempenho escolar, o vazio deixado pelas tutorias foi rapidamente preenchido por novas empresas de edtech, como a Jingzhunxue, apoiada pelo Alibaba. (ou) O foco chinês em desempenho escolar é intenso. Assim, o espaço deixado pelas tutorias foi rapidamente ocupado por novas edtechs, como a Jingzhunxue, apoiada pelo Alibaba.

Essas novas empresas uniram o conhecimento sobre o consumidor a tecnologias de IA acessíveis. Com isso, lançaram produtos de hardware voltados a esse público.

A diferença das edtech chinesas

O modelo de negócios de edtechs na China, assim como no Ocidente, começou com empresas inicialmente focadas em cursos online. No entanto, o mercado chinês divergiu do modelo ocidental e agora há grandes diferenças, em parte devido à complexidade do ambiente regulatório.

“O ambiente regulatório na China é rigoroso, especialmente no setor K-12”, diz Yuan. “No exterior, os mercados são mais livres e permitem uma inovação mais natural.”

“Além disso, a maior parte da demanda na China vem da educação K-12”, explica. “No exterior, predominam a educação profissional e o aprendizado ao longo da vida.”

Por outro lado, os objetivos educacionais também diferem. Enquanto na educação ocidental a IA é usada para incentivar a exploração independente e o aprendizado baseado em questionamento, na China as aplicações têm outro foco. Em vez disso, elas são voltadas para cenários concretos de ensino e prática”, afirma Mengxi Jiang, líder sênior de projetos da Daxue Consulting.

“No momento, a comunidade educacional está, em geral, cautelosa em relação ao ChatGPT. Muitas escolas nos Estados Unidos estão proibindo a ferramenta devido a preocupações com ‘cola’, questões de propriedade intelectual e o impacto na capacidade dos alunos de aprender e praticar”, diz Sun Tianshu, professor de sistemas de informação na CKGSB.

O desafio da internacionalização

Como em outros setores, a China tem uma grande vantagem na cadeia de suprimentos, o que ajuda a reduzir os custos de seus produtos de edtech. Isso, no entanto, não garante que empresas chinesas levem vantagem na competição com rivais internacionais, principalmente por causa das “grandes diferenças entre instituições educacionais e culturais”, afirma Yuan.

Dessa forma, isso pode sinalizar um caminho difícil para as empresas chinesas de edtech que apostam na expansão global a fim de compensar a queda dos lucros no mercado doméstico.
Além disso, a concorrência excessiva, a homogeneização dos produtos e a desaceleração econômica já impactaram suas receitas. Embora algumas empresas tenham buscado expandir para o exterior, histórias de sucesso ainda são raras, tanto no Ocidente quanto no Sudeste Asiático.

Entre as exceções, está a TAL, empresa de reforço escolar que figura entre os poucos pioneiros a se aventurar globalmente. Impulsionada pela popularidade de sua educação em matemática no mercado chinês, a gigante de Pequim estabeleceu sua primeira operação no exterior em 2019. A unidade, chamada Think Academy, foi criada nos Estados Unidos para oferecer cursos de matemática online e presenciais destinados a alunos do ensino fundamental.

A empresa fez um sucesso moderado, expandindo-se para vários países e registrando taxas de crescimento na casa dos três dígitos por vários trimestres consecutivos, de acordo com seu relatório financeiro para o trimestre encerrado em 31 de maio de 2023.

Tecnologia: um agente de igualdade?

Além de oferecer ensino personalizado e maior eficiência, as edtechs também prometem democratizar a educação em regiões remotas e subdesenvolvidas da China. Em 2018, estudantes de uma área empobrecida no sudoeste de Yunnan tiveram a chance de aprender em tempo real com professores renomados de uma instituição de elite em Chengdu.

Para isso, professores instalaram nas salas de aula uma tela de projeção conectada à internet por satélite. Como resultado, educadores e autoridades elogiaram amplamente a iniciativa por ampliar o acesso a recursos educacionais de qualidade e nivelar o campo de oportunidades.

Por outro lado, a importância de usar IA na educação costuma ser avaliada também à luz de suas implicações para o futuro do aprendizado e do trabalho. “Com o rápido crescimento da IA, jovens recém-formados têm a oportunidade de liderar projetos de nível mundial”, afirma Feng Zhou, CEO da NetEase Youdao, plataforma de ensino online e produtora de hardware inteligente.

As controvérsias

Apesar desses pontos positivos, as edtechs despertam controvérsias. Críticos argumentam que elas ampliam a desigualdade entre ricos e pobres, pois muitos produtos de IA têm preços inacessíveis para famílias de baixa renda. Educadores pedem a regulação do uso da IA, preocupados com as implicações éticas de promover essa tecnologia para um público despreparado. “Acredito que a IA apresenta desafios e problemas na forma de incertezas e informações falsas”, diz Jianli Jiao, professor de tecnologia educacional na Universidade Normal do Sul da China.

Durante a pandemia de covid-19, surgiram diversas deficiências no ensino. Naquele período, muitos pais e professores relataram que os alunos enfrentaram problemas como déficit de atenção e falta de engajamento.

Como resultado, ficou evidente que a tecnologia sozinha nunca substituiria bons professores nem o ambiente físico de uma sala de aula. Por isso, muitos ansiavam pelo retorno das aulas presenciais, a fim de restaurar um verdadeiro senso de aprendizado e pertencimento.

Educadores pedem a regulação do uso da IA, preocupados com as implicações éticas de promover essa tecnologia para um público despreparado

“No campo da educação, precisamos definir claramente a divisão adequada de funções entre professores, sistemas e produtos tecnológicos. O processo de educar indivíduos é a especialidade dos professores”, afirma Zhou. “A edtech não deve interferir nesse processo, e sim fornecer suporte em áreas como a transmissão de conhecimento e a resolução de problemas.”

Às vezes, o descompasso entre expectativas e capacidades prejudica a implementação de ferramentas edtech. “Muitas escolas carecem dos recursos tecnológicos e humanos necessários tanto para professores como para alunos”, diz Jon Santangelo, fundador da Chariot Global Education, uma consultoria educacional privada com sede em Guangzhou.

Edtech na entrega rápida para maximizar resultados

Outra questão contestada é o foco das edtech na entrega rápida para maximizar resultados. Para muitos críticos, essa obsessão é contrária à natureza da educação, que deve ser um processo de longo prazo, baseado na interação paciente entre professores e alunos e na motivação dos estudantes para o aprendizado independente e a exploração.

“Ainda que os resultados venham das ações, a implementação da IA na educação está sendo conduzida de forma apressada e sem um roteiro claro, movida principalmente pelas ambições de autoridades educacionais e pelos interesses do setor. Isso pode levar à violação dos princípios fundamentais da educação”, afirma Jianguo Deng, professor de comunicação na escola de jornalismo da Universidade Fudan.

Especialistas alertam contra a introdução precoce das crianças no mundo da IA, pois muitas ainda não possuem a base necessária para esse tipo de aprendizado. Zhou é contra usar IA com alunos do ensino fundamental e médio. “As crianças devem se concentrar mais na construção de uma base sólida em ciência e dominar disciplinas fundamentais, como o inglês”, diz.

Edtech na China redefine o ensino com IA, personalização e inovação. Saiba como o país se tornou líder global em tecnologia educacional.

Reaquecimento do setor edtech após o golpe

No momento, ainda não está claro se as autoridades chinesas continuarão a apertar as regulamentações para conter a febre da IA. Além disso, a memória do duro golpe imposto pela política de “dupla redução” ao setor de reforço escolar ainda está fresca. De acordo com Jiang, em abril de 2024, o governo chinês fechou mais de 95% das instituições presenciais de reforço escolar para disciplinas da educação obrigatória.Enquanto isso, a taxa de fechamento das instituições online ultrapassou 85%.

Segundo ele, a política de “dupla redução” tanto impulsionou quanto restringiu o setor de edtech. Por um lado, acelerou a adoção de novas tecnologias, como a IA, e estimulou o crescimento em áreas como educação de qualidade e hardware inteligente. Por outro lado, a mudança repentina foi um desafio para muitas empresas e acabou causando uma disrupção significativa no setor.

Embora o impacto ainda persista, Yuan afirma que a recuperação da demanda e o relaxamento das restrições impulsionaram o reaquecimento do setor de reforço escolar.

Apesar das altas expectativas de que edtechs melhorem a educação, muitos usuários seguem atentos aos desafios. O período da covid-19 serviu de alerta para a importância de equilibrar tecnologia educacional e interação humana. Além disso, a ideia de que edtechs, sozinhas, promoveriam igualdade educacional tem se mostrado um mito.

O ensino assistido por tecnologia, em um mundo cada vez mais digital, é uma tendência irreversível –e os professores precisarão se adaptar a essas mudanças

No caso da IA generativa…

No caso da IA generativa, “usuários devem atender a certos pré-requisitos, como criar uma conta, pagar, saber formular prompts, identificar erros no conteúdo gerado por IA e integrar esse conteúdo a seu conhecimento prévio”, explica Deng. “O surgimento da IA não resolverá, necessariamente, o problema do acesso desigual à educação.”

Estudantes que dependem excessivamente da IA para gerar respostas a partir de prompts correm o risco de perder a capacidade de pensar de forma independente e de exercer o pensamento crítico, o que preocupa Yin. Embora reconheça o papel das edtechs na redução de sua carga de trabalho (especialmente em tarefas como passar e receber deveres de casa), ela considera que os desafios são evidentes. “Uma grande preocupação é que os alunos fiquem tão dependentes da tecnologia que parem de pensar por conta própria”, diz ela. “Outra questão é se a IA substituirá as tradicionais relações entre professores e alunos.”

A disseminação das edtech descentraliza a autoridade que os professores têm no modelo educacional tradicional, uma vez que torna a presença física na sala de aula obsoleta diante de formas mais sofisticadas de aprendizagem. No entanto, o ensino assistido por tecnologia, em um mundo cada vez mais digital, é uma tendência irreversível –e os professores precisarão se adaptar a essas mudanças.

Educadores, IA e edtechs

“Os educadores de hoje devem aprender a utilizar a inteligência artificial e a trabalhar com IA e robôs”, afirma Jiao. “Precisamos ensinar as crianças a dominar a IA. Há desafios e preocupações legítimas sobre alguns aspectos de edtechs, mas não há razão para os educadores rejeitarem ou abandonarem essa tecnologia. O mercado e a tecnologia continuarão a crescer, especialmente na China.”

“Em longo prazo, o desenvolvimento e a aplicação da tecnologia do ChatGPT terão, sem dúvida, um impacto enorme em todos os sistemas educacionais”, diz Sun. “Acreditamos que a raiz do problema da adoção adequada não está no ChatGPT em si, mas na forma como encaramos a educação e como refletimos sobre os desafios e as oportunidades que a IA apresenta.”

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CKGSB Knowledge é uma publicação reconhecida na Ásia, na América do Norte e na União Europeia pertencente a a Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), uma escola de negócios de renome, sediada em Pequim, na China.