No último jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2026, caímos diante da Noruega. Eram as oitavas de final e a derrota por 2 a 1 nos deixou com a pior campanha desde 1990 e o mais longo jejum de títulos da nossa história. Nas redes sociais, a reação foi previsível: culpou-se o técnico, culpou-se a escalação, culpou-se o pênalti perdido no primeiro tempo. É a resposta fácil, a que qualquer torcida dá depois de uma eliminação.
Mas quem acompanha os números da nossa economia — e é isso que faço nesta coluna, mês após mês —, sabe que o que aconteceu em campo é sintoma, não causa.
TRÊS FATORES
O Brasil não perdeu a Copa naquele jogo. Vem perdendo, silenciosamente, a matéria-prima que fazia dele uma potência do futebol. E os motivos têm menos a ver com tática do que com desenvolvimento econômico. Enxergo pelo menos três fatores que precisam ser analisados.
1º fator: o Brasil ficou mais rico — e isso muda tudo
Por décadas, o futebol brasileiro não nasceu em centros de treinamento; nasceu na rua. No campinho de terra, na vielinha do morro, no fundo de quintal sem grama. Geração após geração de meninos descalços transformaram a bola numa única rota de ascensão social plausível. Não era paixão desinteressada: para uma criança sem acesso a boa escola, sem perspectiva de emprego formal, o futebol era literalmente a única aposta com retorno possível. Ronaldo Fenômeno cresceu sem condições de comprar uma chuteira decente. Ronaldinho Gaúcho refinou o drible jogando pelada com adultos. O pai de Neymar largou o emprego para dedicar a vida ao filho em campo. Não era romantismo, era estratégia de sobrevivência de uma família inteira.
Esse funil, alimentado por milhões de crianças competindo pela mesma saída, era o que garantia ao Brasil uma geração de craques atrás da outra, sem intervalo. Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho — o País nunca temeu ficar sem talento porque a pobreza, por mais triste que seja dizer isso, funcionava como uma peneira brutalmente eficiente.
E aqui está o ponto que, como colunista que escreve sobre economia e sobre a relação Brasil-China, mais me interessa: esse funil está se esvaziando porque o Brasil, de fato, melhorou de vida. Os dados do IBGE mostram a pobreza extrema no País no seu menor patamar histórico, uma queda expressiva em poucos anos. Parte relevante desse avanço tem endereço conhecido: a China é, há quase duas décadas, o maior parceiro comercial do Brasil, e o fluxo de soja, minério de ferro e carne que sai dos nossos portos rumo à Ásia sustenta hoje a renda de milhões de famílias — do produtor rural ao motorista de caminhão, do trabalhador portuário ao operário de fábrica erguida com capital chinês. Quando escrevi aqui sobre a chegada das montadoras chinesas ao Brasil, o argumento era o mesmo: essa relação bilateral não é abstração de manual de economia; ela chega ao bolso das pessoas.
E quando o bolso das pessoas melhora, a lógica de “apostar tudo no futebol” deixa de fazer sentido. Hoje, o filho de uma família de classe média baixa tem outras portas: cursar uma faculdade, entrar numa empresa de logística ligada ao comércio exterior, trabalhar num polo industrial, empreender no e-commerce. Ninguém mais precisa jogar a vida de um filho numa probabilidade de uma em dez mil. Os talentos mais promissores, os que antes seriam capturados inteiramente pelo futebol, agora se dividem entre múltiplos caminhos — e é natural que menos deles cheguem à elite do esporte.
2º fator: há uma concorrência que ninguém viu chegar
Some a isso um concorrente que não existia há 30 anos: o game. O Brasil é hoje um dos maiores mercados de videogame do mundo, e boa parte dos adolescentes brasileiros passa mais tempo competindo numa tela do que numa quadra. Equipes brasileiras de e-sports disputam torneios internacionais com a mesma paixão de uma final de campeonato, e para um garoto de 15 anos, virar streamer ou jogador profissional de e-sports é hoje um caminho tão real — e às vezes mais rápido — quanto virar atleta profissional. Antes, todo menino queria ser o novo Ronaldinho. Hoje, uma fração relevante quer ser campeão mundial de outro tipo de jogo.
3º fator: a Europa levou embora o que restava
Por fim, há um terceiro fator, este vindo de fora: a máquina de formação europeia amadureceu e passou a recrutar talento brasileiro cada vez mais cedo. Antigamente, um craque brasileiro passava anos no futebol local antes de embarcar — Romário só foi para a Europa aos 24, Pelé nunca chegou a sair do país em atividade. Hoje, Vinícius Júnior e Endrick foram garantidos pelo Real Madrid ainda aos 16 anos, muitos meninos assinam contrato antes mesmo de estrear no time principal de um clube brasileiro.
O resultado é que esses jogadores amadurecem tecnicamente dentro do sistema europeu — mais disciplinado, mais tático, menos tolerante à imprevisibilidade — e perdem, no caminho, parte daquela imprevisibilidade que sempre foi a marca registrada do futebol brasileiro. A seleção que se despediu da Copa jogava um futebol competente, fisicamente forte, tecnicamente seguro — e, ainda assim, sem alma.
O EXPERIMENTO CHINÊS
E é aqui que a coluna ganha um contraponto que acho revelador, porque, enquanto o Brasil perdia organicamente sua fábrica de craques, a China tentou, por decreto, construir uma do zero — e vale a pena entender por que o resultado foi tão diferente.
Em 2011, ainda antes de assumir o comando do país, Xi Jinping declarou publicamente três desejos para o futebol chinês: ver a seleção voltar a uma Copa do Mundo, sediar o torneio e, um dia, conquistá-lo. Em 2016, esse desejo virou política de Estado, com o lançamento do “Plano de Desenvolvimento do Futebol Chinês”, documento com horizonte até 2050 que tratava o esporte como projeto de nação: dezenas de milhares de escolas com futebol no currículo, dezenas de milhares de novos campos espalhados pelo país, metas de dezenas de milhões de crianças em atividade regular.
O primeiro movimento, porém, não foi formar a base — foi comprar o topo. Entre 2015 e 2017, clubes da Superliga Chinesa, financiados sobretudo por conglomerados imobiliários, gastaram bilhões de dólares trazendo estrelas estrangeiras, e o Brasil forneceu boa parte do elenco dessa aventura: Oscar, Hulk, Paulinho, Ramires, Renato Augusto, Talisca e Alexandre Pato, entre outros, trocaram a Europa (ou o próprio Brasil) por salários gigantescos em Xangai, Guangzhou ou Pequim. Foi uma injeção de holofote, não de raiz: o público chinês passou a assistir a um futebol de alto nível dentro de casa, mas isso não formava, por si só, um jogador chinês.
O próprio governo percebeu o desequilíbrio e reagiu: impôs teto e uma taxação de 100% sobre contratações estrangeiras acima de determinado valor, passou a exigir escalação obrigatória de jovens sub-23, e determinou que uma fatia do orçamento dos clubes fosse destinada às categorias de base. Na teoria, era o caminho certo. Na prática, formar um jogador de elite leva décadas de cultura, técnica e competição consistente — algo que não se decreta. Some a isso a pandemia, que interrompeu treinos e campeonatos por anos, e o colapso financeiro de gigantes como a Evergrande, cujo clube — o mais vitorioso da história recente do país — simplesmente deixou de existir em meio a dívidas impagáveis, além de escândalos de manipulação de resultados e apostas que baniram dezenas de dirigentes e ex-jogadores.
O resultado: a China nem sequer se classificou para a Copa de 2026, apesar de ser a segunda maior economia do planeta.
Ainda assim, seria injusto dizer que o projeto morreu. Nos últimos dois anos, o governo redirecionou o investimento de volta à base: bilhões de yuans destinados ao futebol escolar, dezenas de milhares de escolas com programas ativos, um número de jovens jogadores registrados crescendo de forma consistente, e até torneios amadores populares, como a “Superliga dos Vilarejos”, que viraram fenômeno de comunidade e turismo em regiões antes irrelevantes para o esporte. A China entendeu, tarde, o que o Brasil sempre soube por necessidade: craque não se importa, se cultiva — e cultivo leva geração, não trimestre orçamentário.
O contraste é o que torna a comparação interessante numa coluna sobre a relação entre nossos dois países: o Brasil tinha uma fábrica de talentos que funcionava sozinha, movida pela pobreza, e está vendo essa fábrica esvaziar-se à medida que a sociedade prospera, sem ter encontrado outro caminho para mantê-la. A China nunca teve essa fábrica e está tentando construí-la a partir do Estado, com dinheiro, planejamento de longuíssimo prazo e — só agora — paciência.
São dois países, dois pontos de partida, e um mesmo aprendizado: o futebol de elite não se resolve com um cheque grande, nem se sustenta apenas com carência social. Precisa de tempo, de cultura enraizada e, talvez, de um certo desafio econômico que Brasil e China precisam (re)descobrir como proporcionar.
O PARADOXO EM QUE VALE A PENA PENSAR
Ninguém em sã consciência deseja voltar à pobreza que produzia craques. Eu mesmo, como pai de um filho pequeno, jamais gostaria que a única saída dele fosse uma bola de futebol. Mas fica a reflexão, e talvez seja essa a lição que vale também para outros setores que acompanho nesta coluna: desenvolvimento econômico redistribui talento. Quando um país cresce, os setores que antes absorviam os mais ambiciosos e mais talentosos — porque eram a única porta — passam a competir por atenção com dezenas de outras portas. Isso já aconteceu, guardadas as proporções, com áreas técnicas na China, onde o crescimento econômico redirecionou gerações inteiras para engenharia, tecnologia e empreendedorismo. O Brasil está vivendo sua própria versão disso, só que no campo simbólico do futebol. A pergunta a responder é: como desenvolver talentos neste cenário?
Neste domingo, duas seleções vão disputar a final da Copa do Mundo de 2026 sem a presença do Brasil e sem a China. Talvez o verdadeiro placar do nosso último jogo não tenha sido 2 a 1. Seja o retrato de um país que trocou, aos poucos, a urgência da rua pela tranquilidade relativa da classe média — e que ainda está aprendendo a conviver com o que ganhou e com o que perdeu no caminho.
