Voltei de Macau com mais do que memórias: voltei com a certeza de que a Ásia não está apenas disputando o protagonismo tecnológico global — ela está moldando uma nova gramática de inovação. 

A Beyond Expo 2025, realizada no coração pulsante do Greater Bay Area, não é uma feira. É uma vitrine-viva de futuros em construção. E estar lá, representando a América Latina no LATAM Tech Forum, foi uma honra e uma responsabilidade.

O próprio nome do evento — BEYOND — não é apenas uma marca: é uma afirmação estratégica. Em um mundo onde o Ocidente ainda debate os limites éticos, regulatórios e econômicos da tecnologia, a China se propõe a ir além. Beyond regulações convencionais. Beyond fronteiras nacionais. Beyond modelos industriais legados. 

É uma provocação deliberada: a China não está apenas competindo no presente, ela está projetando futuros. E ao intitular um dos maiores eventos de tecnologia do continente com essa palavra, o país declara com clareza sua ambição: não quer apenas adaptar-se à ordem estabelecida, deseja redesenhar os parâmetros do jogo.

Futuro orquestrado — não improvisado

Na Beyond, tecnologia não é um produto a ser admirado. É uma alavanca geopolítica, um ativo de soberania, uma forma de moldar mercados e valores. O evento encarna uma nova postura: não se trata mais de seguir a inovação — trata-se de defini-la. E isso, por si só, é o maior sinal de que o epicentro do futuro está, cada vez mais, se deslocando para o Oriente.

Foram três dias que fiquei exposta a exemplos e realidade de uma engrenagem perfeita de desenvolvimento em ação. Cada elemento do ecossistema asiático se conecta com precisão: o governo define metas estratégicas de longo prazo; o capital (público e privado) financia com agilidade; as universidades formam talentos alinhados à demanda real; e as empresas executam com foco e velocidade. Não há fricção, há orquestração.

Essa engrenagem não nasce do acaso, mas de uma visão sistêmica onde inovação não é um silo, e sim parte de um projeto nacional. Em vez de fragmentação e disputas internas, vê-se sinergia e execução coordenada. O resultado é um ciclo virtuoso de aprendizado, investimento e impacto que acelera com consistência — não por sorte, mas por design.

Para quem vem de um contexto marcado por descontinuidade, rupturas políticas e falta de visão integrada, presenciar essa engrenagem funcionando é, ao mesmo tempo, fascinante e desconcertante. A China nos mostra que desenvolvimento é possível quando há alinhamento entre intenção, estrutura e ação. E que, mais do que copiar soluções, precisamos aprender a desenhar nossas próprias engrenagens com clareza de propósito e ambição coletiva.

Tive também a missão de estrear no palco, onde falei sobre o papel do Brasil e da América Latina como um hub de inovação sustentável — e como nossas economias podem (e devem) cooperar em cadeias tecnológicas estratégicas. Compartilhei dados, provocações e uma visão sobre a forma como estamos nos conectando à revolução da IA, do hardware e da governança tecnológica, além de uma fotografia de uma região que muitos querem explorar, mas que também possui características únicas que devem ser consideradas. Como destaquei: onde há desafio, há também oportunidade.

A China nos mostra que desenvolvimento é possível quando há alinhamento entre intenção, estrutura e ação

E é a partir dessa perspectiva que compartilho os 10 aprendizados mais marcantes da minha vivência em Macau. Um olhar latino-americano diante de uma vitrine global que, se ainda nos vê com curiosidade, agora espera por nossa atuação com muito mais protagonismo.

1. Latam na vitrine global

A presença latino-americana ainda é pequena, mas altamente simbólica. O interesse em nossa região é real — especialmente pelo potencial de inovação com impacto socioambiental. Investidores, fabricantes de hardware e fundos de inovação da Ásia enxergam na América Latina um espaço fértil para expansão estratégica. Falta-nos apenas uma coisa: presença ativa e intencional. A Beyond deixou claro que, se o Brasil não ocupar o espaço, ele será ocupado por outros com mais velocidade e pragmatismo.

2. A nova linguagem é a dos agentes

Agentes autônomos não são mais uma tendência emergente — são o novo alicerce da arquitetura computacional. Várias soluções apresentadas no evento se baseavam em estruturas multiagentes capazes de executar tarefas em fluxo, com raciocínio e adaptação. A convergência entre Large Language Models, sensores e capacidades autônomas cria um ecossistema onde o software não apenas responde: ele age. A nova fronteira é agentic — e exige novas camadas de governança, interoperabilidade e confiabilidade.

3. Hardware, hardware, hardware

A Ásia aposta no que o Ocidente subestimou: a infraestrutura física da inovação. Computação de borda, chips especializados em IA, robôs colaborativos, wearables e sensores inteligentes dominaram os estandes. A inteligência artificial não nasce apenas no modelo — ela é catalisada pelo hardware que coleta, transforma e interpreta o mundo físico. O Brasil precisa urgentemente construir políticas industriais para esse setor. Sem hardware, ficamos dependentes de nuvens e modelos que não controlamos.

4. Espaço físico como diferencial competitivo

A Beyond Expo, em si, é uma lição sobre o poder da presença. Experiências imersivas, design sensorial, storytelling espacial. Cada marca marcou presença com um espaço de vivência, não com uma vitrine passiva. A arquitetura do evento integrava som, movimento, aroma, imagem e dados em tempo real. Isso nos mostra que, mesmo no mundo digital, o físico não morreu — ele apenas precisa ser ressignificado como lugar de presença, conexão e ativação emocional. 

5. Ecossistemas como estratégia, não metáfora

Na Ásia, ecossistema é uma realidade estratégica, não um termo de marketing. As empresas operam em redes articuladas com governo, universidades, startups e fundos públicos/privados. O Greater Bay Area (GBA), por exemplo, é uma política industrial em forma de território, integrando inovação entre Shenzhen, Hong Kong, Macau e outras cidades. O Brasil precisa de zonas inteligentes com visão sistêmica, continuidade política e metas tecnológicas claras.

6. Narrativas moldam tecnologias

As marcas que se destacaram não foram apenas as mais tecnológicas, mas as que souberam contar boas histórias. Startups com soluções medianas, mas com narrativas potentes de impacto ambiental, cultura local e estética emocional atraíram investimentos e parcerias. A comunicação importa — sobretudo nem um mundo saturado de promessas técnicas. Nosso desafio na América Latina é construir narrativas que conectem tecnologia com identidade, urgência e futuro.

7. Governança e regulação como diferencial

Muitas soluções apresentadas já nascem com camadas de regulação embutidas. Avaliação de impacto algorítmico, proteção de dados sensíveis, rastreabilidade e alinhamento com metas de sustentabilidade (ESG). Em um dos painéis que assisti sobre governança de IA na China, ficou claro que as empresas locais entendem que operar globalmente exige accountability desde a concepção. É hora de nossos conselhos e órgãos reguladores agirem com a mesma antecipação.

8. A China não está esperando por ninguém

Shenzhen, Hangzhou, Chengdu, Suzhou, Shangai… cada uma dessas cidades têm vocações e especializações únicas dentro de um plano nacional de longo prazo. A velocidade de execução é impressionante. Governos locais possuem metas de inovação, fundos públicos de investimento, incentivos fiscais e infraestrutura conectada à estratégia industrial. Enquanto debatemos no Brasil “como regular IA”, eles discutem como exportar seus modelos de inovação para o mundo.

9. O futuro já está distribuído — só não o vemos

Na Beyond, vi tecnologias que não apareceram nos últimos eventos nos EUA ou Europa: dispositivos de saúde baseados em biomarcadores emocionais, óculos de realidade aumentada para idosos com Alzheimer, robôs com pele sintética sensível ao toque. A inovação não tem um único centro. O futuro não está em Palo Alto ou Berlim — ele está emergindo em muitos lugares ao mesmo tempo e só participa dele quem olha além dos seus próprios referenciais.

10. Inovação é também um gesto político

Estar na Beyond foi um gesto de presença geopolítica. Participar do Latam Tech Forum foi um reforço às ações de diplomacia tecnológica. Cada painel, reunião e conversa informal tinha uma camada estratégica: cooperação, investimento, visibilidade, reciprocidade. O Brasil precisa formar lideranças que falem a língua da inovação com sotaque global. E precisa entender que inovação não é só técnica — é também projeto de país.

 A Beyond Expo 2025 foi mais do que uma feira de tecnologia, foi um convite para ocuparmos mais espaços, com mais visão, mais estratégia e mais colaboração. Como conselheira, professora e arquiteta de inovação, saio de Macau com o compromisso de ampliar pontes entre a América Latina e a Ásia. Porque o futuro não vai esperar — e ele já está em construção, lá na China!

Executiva de tecnologia, conselheira e especialista em gestão e governança