Produto chinês, o mundo já aprendeu a consumir: custa menos, entrega bem, resolve o que promete, vende em massa. Não incomoda ninguém. Não vira motivo de conversa. Não cria desejo.

Já no caso de marca é diferente: marca tem que provocar, fazer virar o pescoço, despertar apego, comparação, inveja. E, de vez em quando, até ciúme.

É o que começa a acontecer com a BYD. A marca já não é só sinônimo de produto de alta qualidade. Nem apenas a que entrega tecnologia de ponta por um terço do preço. É aquela que o consumidor escolhe com vontade, recomenda aos amigos, mostra com satisfação. E que começa a ocupar espaço – inclusive simbólico.

A concorrência está vendo. E não está gostando. Nada. Defende-se atacando, em um esforço para colar rótulos. Há pedidos de socorro institucional. Há medo de perder protagonismo – e não estou falando só de market share. 

Porque o que incomoda não é o volume. É a curva de desejo. É ver o consumidor tradicional olhar para o lado. É ver a marca chinesa deixar de ser exceção para virar escolha.

Produto, não! Marca

Ricardo Dias, em artigo muito compartilhado no LinkedIn bem que avisou: a China já abastece o mundo há décadas – mas sempre nos bastidores. Produto, sim. Marca, não.

Comprava-se “made in China” como quem lê a etiqueta por dentro. O que valia era o selo da frente. A marca visível ainda precisava vir de outro lugar. Com a BYD, isso começa a mudar.

A marca vem da China — e não tem vergonha de dizer. Tem dono chinês. Tem tecnologia desenvolvida lá, feita lá, liderada “de lá”. E está sendo escolhida aqui. Não como alternativa, mas como preferência.

E isso, em qualquer mercado, machuca. Porque mexe onde mais dói: no hábito. Na identificação. Na certeza de que a preferência do cliente, antes garantida, já não está.

O consumidor que rodou 15 anos com o mesmo carro a combustão está migrando. E está feliz com a troca. Posta, conta, convence os outros. O mais grave para quem sempre ditou o gosto: faz isso sem pedir aprovação.

Tem coisa que se conquista com o tempo. Tem coisa que só se conquista quando o outro começa a se incomodar. A BYD está nesse ponto. Está virando marca que as pessoas querem ter.

E, para muitos concorrentes, isso é inaceitável. Porque aí não é só preço, bateria ou tecnologia. É desejo.

E há um plot twist à porta: a marca chinesa que se tornou sinônimo de desejo agora tem uma fábrica colossal na Bahia. E vai passar a levar na etiqueta, orgulhosamente, um made in Brazil.

Pablo Toledo é jornalista formado pela PUC-SP com mestrado pela Columbia University. Passou pelas principais redações do país e conquistou prêmios internacionais com documentários focados em pautas sociais. Em 2023, tornou-se executivo de comunicação e marketing da BYD, participando ativamente da construção da marca no Brasil. A BYD é a líder mundial no mercado de carros elétricos e híbridos.