A relação econômica sino-brasileira, formalizada com o estabelecimento das relações diplomáticas em 1974, completa 51 anos. Nas últimas duas décadas, atuei diretamente com investimentos chineses no Brasil e, neste artigo, apresento os principais destaques dessa trajetória: a evolução dos aportes no passado, a situação atual das relações e as perspectivas para o futuro da parceria entre Brasil e China.

Os investimentos chineses no Brasil já ultrapassam a marca de US$ 100 bilhões. A natureza desses aportes mudou radicalmente: de uma pauta centrada em commodities, passou-se a uma integração mais profunda e diversificada na infraestrutura crítica e no parque industrial brasileiro. O futuro da parceria aponta para a continuidade dessa tendência, com foco crescente em tecnologia, energia renovável e veículos elétricos – fatores que devem moldar ainda mais o desenvolvimento econômico do país nas próximas décadas.

Essa relação evoluiu de um intercâmbio comercial modesto para uma complexa e estratégica rede de investimentos diretos, consolidando a China não apenas como o maior parceiro comercial do Brasil, mas também como fonte crucial de capital para setores estratégicos. Essa trajetória de 51 anos pode ser dividida em três fases distintas (1974-2025):

Primeira fase: a semente do investimento
(décadas de 1970 a 1990)

Esse período foi marcado predominantemente pelo comércio de commodities brasileiras e manufaturados chineses. O marco mais relevante foi o plano de investimento da Baosteel, em 1989, para a formação de uma joint venture

Segunda fase: a aceleração das commodities
(anos 2000 a 2010)

Impulsionada pelo boom das commodities, essa fase foi definida por investimentos massivos em recursos naturais. Empresas estatais chinesas fizeram movimentos estratégicos nos setores de petróleo, gás e mineração.

No setor de óleo e gás, a Sinopec destacou-se ao adquirir, em 2010, 40% dos ativos da espanhola Repsol no Brasil, formando a Repsol Sinopec Brasil. No mesmo ano, o consórcio CNPC & CNOOC comprou 20% dos direitos de exploração do campo de Libra, investimento estimado em US$ 500 milhões na fase inicial.

Na indústria de mineração, o foco recaiu sobre o minério de ferro, com destaque para a Wuhan Iron and Steel (Wisco), que investiu US$ 400 milhões no projeto MMX.

Na telecomunicação, a chegada da Huawei ao Brasil marcou o início da presença chinesa no setor.

Terceira fase: diversificação e consolidação
(pós-2010 até hoje)

A partir da década de 2010, os investimentos chineses expandiram-se agressivamente para energia elétrica (transmissão e renováveis), infraestrutura (portos e ferrovias) e indústria de transformação (veículos e tecnologia), incluindo aquisições de grande porte e instalação de fábricas.

Na energia elétrica, a State Grid consolidou-se como o maior investidor chinês no Brasil, com destaque para a aquisição da CPFL Energia em 2017, em uma transação avaliada em cerca de US$ 4,5 bilhões. Outra gigante, a China Three Gorges, comprou as hidrelétricas Jupiá e Ilha Solteira em 2015 por US$ 1,7 bilhão e, em 2023, adquiriu a Duke Energy Brasil por US$ 1,2 bilhão, tornando-se uma das maiores geradoras privadas do país.

Na agropecuária, a COFCO International comprou a Nidera em 2014 por US$ 1,2 bilhão e a Noble Agri em 2016 por US$ 1,5 bilhão, herdando ativos como portos, silos e unidades processadoras, e consolidando-se como uma das maiores tradings de grãos do país.

Na indústria e manufatura, os aportes concentram-se em setores automotivo e de máquinas pesadas. A Sany investiu inicialmente US$ 200 milhões; a BYD já possui duas fábricas no país — em Campinas (SP), onde produz ônibus e painéis solares, e em Camaçari, na Bahia, com investimento planejado de US$ 600 milhões; e a Great Wall Motors (GWM) adquiriu, em 2021, a fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP) – e planeja investir mais US$ 2 bilhões nos próximos anos.

Na infraestrutura e tecnologia, a China Communications Construction Company (CCCC) participa de consórcios em obras portuárias e de logística, enquanto a Huawei, presente no Brasil há décadas, já investiu centenas de milhões de dólares em P&D, com centros de inovação e fornecimento de equipamentos para todas as grandes operadoras de telecomunicações.

Além desses, há inúmeros investimentos greenfield e outros que não foram listados aqui, mas cujo impacto é inegável. O fortalecimento da relação Brasil-China está ancorado em interesses econômicos mútuos e em alinhamento estratégico em um cenário global em transformação.

Embora desafios e pressões geopolíticas persistam, o potencial dessa parceria em comércio, investimento e sustentabilidade permanece vasto. A cooperação econômica e tecnológica entre Brasil e China já se consolidou como um dos pilares fundamentais da parceria estratégica bilateral. 

Ainda que o comércio de commodities continue central, as duas nações caminham para uma integração cada vez maior em indústrias de alta tecnologia, infraestrutura digital e energia sustentável.

À medida que o Brasil busca modernizar sua economia e a China expande a sua influência global, ambos navegam em avanços econômicos e tecnológicos que podem redefinir o papel da cooperação Sul-Sul no século 21.

Daniel Lau é diretor-executivo sênior com experiência em diversos setores e fluente em quatro idiomas, entre eles o mandarim. Desde 2002, assessora operações que somam mais de US$ 15,7 bilhões entre Ásia/China e América Latina. Foi chief-urator do IBGC na China e é membro do BRICS Business Council. Formado pelo HIT (China) e CAF, tem mestrado em finanças e MBA em marketing.