Se o Natal fosse celebrado na China, é provável que robôs e brinquedos com inteligência artificial estivessem entre os presentes mais desejados de 2025, por crianças e adultos. Mas, para os consumidores chineses, o verdadeiro evento do ano é o Single’s Day, comemorado em 11 de novembro e frequentemente comparado à Black Friday. Criado como uma brincadeira universitária nos anos 1990, o festival foi transformado pelo Alibaba na maior maratona de consumo do planeta.
Embora já não cresça no mesmo ritmo de antes, o Single’s Day continua sendo o maior evento de varejo do mundo – e uma vitrine estratégica para o lançamento de novos produtos. Diferentemente das datas ocidentais, centradas em liquidações e trocas de presentes, o festival tornou-se também palco de estreia para as principais inovações de consumo da China.
Todos os anos, um novo “gadget da temporada” domina os holofotes. Até marcas de luxo desenvolvem produtos exclusivos para a ocasião. Minha previsão? Em 2025, veremos o primeiro grande best-seller com inteligência artificial embarcada – e talvez em forma de robô.
O robô como brinquedo, assistente e celebridade
A fronteira entre brinquedo, gadget e robô ficou borrada na China. A startup ROOBO, por exemplo, ficou famosa por lançar assistentes pessoais infantis com IA que contam histórias, aprendem a rotina da criança e interagem por comandos de voz. Já a iFLYTEK mistura NLP (processamento de linguagem natural) com brinquedos educacionais em forma de animais, que ajudam no aprendizado infantil – e hoje fazem parte da lista de desejos de muitas famílias chinesas.
Outro exemplo é o Xiaodu Smart Display Robot da Baidu, um híbrido de tela inteligente com feições expressivas, que roda o DuerOS e virou parte do mobiliário doméstico de jovens solteiros nas cidades de primeira linha. Mais recentemente, a Unitree Robotics, que ganhou fama com seus robôs quadrúpedes, parecidos com os da Boston Dynamics, lançou versões mais baratas e menores voltadas para o entretenimento, que fazem entregas urbanas e até “segurança pessoal portátil”.
Esses dispositivos já circulam por feiras como a BEYOND Expo, em Macau, e o World Artificial Intelligence Conference (WAIC), em Shanghai, mas começam agora a aparecer no feed de influenciadores chineses como presentes desejados para o Single’s Day. A cidade de Shenzhen, berço do hardware global, já exibe protótipos em cafés e lojas conceito. E Shanghai pode se tornar a primeira megacidade do mundo onde robôs humanóides passeiam pelas ruas em escala – não como metáfora, mas como produto.
Do personagem ao robô: a IA encarnada
Na China, não é incomum que um personagem de brinquedo se torne uma celebridade e, em seguida, seja transformado em um produto interativo com IA. O fenômeno Labubu, da Pop Mart, ilustra bem esse caminho: o boneco já vende mais do que as marcas Hasbro e Mattel somadas em determinados canais digitais chineses. Com a integração de IA generativa, é provável que vejamos, em breve, versões falantes, móveis e com personalidade adaptável de personagens como Labubu e seus semelhantes.
Plataformas como Douyin (TikTok) e Kuaishou estão testando campanhas de livecommerce com robôs interativos, que não só demonstram produtos como também respondem perguntas, leem o chat e criam esquetes ao vivo. Surge, assim, uma geração de “creators” artificiais: os influenciadores-robôs, alimentados por IA e com design cativante, preparados para vender – e entreter.
Gadgets para todos os públicos
Nem tudo precisa ter forma de robô. Gadgets de IA estão se tornando mainstream rapidamente. O Plaud AI, um gravador de reuniões com transcrição e resumo embutidos, é um sucesso entre freelancers e profissionais em cidades como Hangzhou e Guangzhou. O Rabbit R1, embora ainda não tenha viralizado, representa bem essa nova leva de assistentes pessoais de bolso, que operam com modelos de linguagem e dispensam o celular.
Empresas como Insta360, famosas por suas câmeras de ação, já incorporam IA para edição automática de vídeos, recomendação de cortes e até produção de mini-histórias – tudo feito no próprio dispositivo. O futuro não é mais a IA em nuvem, mas a IA on-device, embutida diretamente no produto físico, com zero latência e consumo reduzido de energia.
O Brasil deve prestar atenção
O que isso tudo tem a ver com o mercado brasileiro? Mais do que parece. Em breve, plataformas como TikTok Shop, Shopee e Amazon Brasil começarão a listar esses robôs e gadgets como “presentes virais do ano”. Importadores atentos já observam as listas de tendências da Taobao, JD.com e Xiaohongshu (RED) para antecipar as ondas.
Além disso, as marcas chinesas têm demonstrado apetite para testar produtos no Brasil com baixo custo de aquisição de usuário e alto poder de compartilhamento. Um brinquedo com IA que viraliza no TikTok, hoje, pode estar na casa de milhares de brasileiros em questão de semanas. E mais do que isso: pode redefinir o que chamamos de “brinquedo” – não mais um objeto passivo, mas um agente inteligente, emocionalmente responsivo e socialmente ativo.
A revolução do consumo com IA já começou
O Single’s Day de 2025 talvez seja lembrado não pelo número de transações, mas por marcar o início de uma nova categoria de produto: a IA como presente. Robôs que ajudam na lição de casa, gadgets que entendem emoções, brinquedos que aprendem com seus donos. Tudo isso deixará de ser demo futurista e se tornará escolha de presente real, acessível e desejado.
Se o Ocidente ainda vê a IA como uma tecnologia empresarial ou de infraestrutura, a China está rapidamente tornando-a um produto de consumo de massa. E como toda inovação chinesa, o próximo passo será a internacionalização. Prepare-se: o presente de Natal do seu filho em 2026 pode muito bem ser um robô chinês.
