Uma boa liderança é pré-requisito para o sucesso de uma organização, mas a forma como ela se manifesta não está escrita em pedra. Diferentes pessoas e culturas promovem atitudes distintas em relação à gestão empresarial, mas existem características fundamentais que sustentam as abordagens de liderança em todos os setores – e ao redor do mundo.

Nesta entrevista, Zhao Xinjin, executivo aposentado da ExxonMobil, autor de The Odyssey of Self-Discovery: On Becoming a Leader (sem tradução para o português) e residente nos Estados Unidos há mais de 30 anos, discute a necessidade de os líderes gerarem credibilidade e confiança, estratégias eficazes de liderança e as semelhanças e diferenças ao gerenciar em diferentes culturas e escalas de negócio.

Quais são os princípios-chave de uma liderança eficaz?

Xinjin – Diferentes pessoas têm interpretações distintas sobre o que é liderança eficaz. Algumas enfatizam a capacidade de realizar tarefas, outras destacam a importância da influência na tomada de decisão e há aquelas que focam na habilidade de inspirar ou de motivar pessoas. Portanto, é possível interpretar liderança eficaz de diversas formas.

Na minha visão, uma liderança eficaz em longo prazo está, em última instância, centrada nas pessoas. Trata-se de como você cria uma visão que inspira e motiva, lidera pelo exemplo e desenvolve a próxima geração de líderes. Acredito que os aspectos cruciais da liderança eficaz são credibilidade e confiança, que exigem saber como ser autêntico, transparente e consistente. Todos esses fatores se manifestam de maneiras diferentes, mas sempre convergem para a construção de credibilidade e confiança.

A autenticidade demonstra que você é humano e ajuda a criar uma cultura de segurança psicológica, permitindo que os outros compartilhem suas perspectivas. A transparência fortalece a confiança dentro da organização e capacita as pessoas a tomar decisões com base nas informações mais atuais e precisas. E a consistência cultiva uma cultura focada em objetivos de longo prazo, em vez de resultados imediatos. Quanto mais consistente você for, maior será sua credibilidade dentro da organização.

“Uma liderança eficaz em longo prazo está, em última instância, centrada nas pessoas. Trata-se de como você cria uma visão que inspira e motiva, lidera pelo exemplo e desenvolve a próxima geração de líderes”

De outra perspectiva, também podemos enxergar a liderança eficaz como a disposição de assumir responsabilidades. Seja na tomada de decisões, no compromisso com determinados resultados ou na promoção de mudanças, esses são aspectos cruciais da liderança. Mas, independentemente da abordagem, a capacidade de motivar e inspirar as pessoas é essencial.

Você pode dar um exemplo de estratégias eficazes de liderança?

Xinjin – Muitas empresas possuem frameworks ou princípios de liderança, mas um dos meus favoritos são os princípios de liderança da Amazon. Eles são simples, claros e oferecem pouca margem para interpretações equivocadas. O primeiro item da lista é a obsessão pelo cliente; o que eu gosto nisso é que não há realmente como interpretar de outra maneira. Não se trata apenas de satisfação do cliente ou de fazê-lo feliz, mas sim de uma obsessão pelo cliente.

Outro princípio é que os líderes “estão certos, frequentemente”. Obviamente, líderes não são perfeitos, mas espera-se que tenham um alto índice de acertos. Isso significa ter bom julgamento e instintos apurados. Embora  líderes tomem decisões baseadas em dados, há também um nível de interpretação pessoal e ação envolvido. No mundo atual, onde há uma enorme quantidade de informações disponíveis, essa habilidade é fundamental.

Como a liderança eficaz se manifesta de maneira diferente dependendo do contexto cultural?

Xinjin – Não há um consenso claro sobre isso, pois diferentes pessoas possuem pontos de vista muito distintos. Viajando pelo mundo a trabalho, vi de perto que cada país tem sua cultura, seu ambiente de negócios e suas práticas empresariais.

Por outro lado, ao analisar melhor, percebo que há muito mais semelhanças do que diferenças. No nível humano, todos queremos respeito e buscamos trabalhar com pessoas honestas, consistentes e transparentes. Portanto, os princípios fundamentais são os mesmos, mas a forma como as abordagens são aplicadas para alcançar os objetivos empresariais pode variar.

Por exemplo, em algumas culturas, as pessoas confiam em você até que se prove o contrário, enquanto em outras ocorre o oposto: você precisa conquistar a confiança delas. Mas, no fim das contas, trata-se apenas de diferentes caminhos para alcançar a confiança e a credibilidade necessárias para realizar seu trabalho.

“Cada pessoa é motivada por fatores diferentes. Sem entender essas motivações, é muito difícil liderar. Esse é um dos motivos pelos quais muitos programas de desenvolvimento de liderança em organizações não são eficazes”

Também existem diferenças marcantes dentro de um mesmo contexto cultural. Se olharmos para as diferentes gerações na China, por exemplo, comparando a geração de 30 anos atrás com a atual, perceberemos que os jovens enxergam a liderança de forma completamente diferente de seus predecessores. Por conta dessas variações, eu diria que o foco deve estar no indivíduo e na sua singularidade, em vez de se prender a classificações como “americano” ou “chinês” – o que muitas vezes levam a estereótipos.

O que se deve levar em conta ao desenvolver líderes e boas práticas de liderança?

Xinjin – Enquanto escrevia meu livro, fiz uma pesquisa sobre liderança que trouxe alguns resultados interessantes, especialmente a partir de duas perguntas específicas:

  • Você já se perguntou por que quer ser um líder?
  • Alguém na sua organização já perguntou por que você quer ser um líder?

Cerca de 82% dos entrevistados responderam “sim” à primeira pergunta, ou seja, já haviam refletido sobre suas motivações para liderar. No entanto, apenas 39% disseram que alguém dentro da organização já havia feito essa pergunta a eles. Isso significa que aproximadamente 60% das pessoas nunca tiveram essa conversa com ninguém. E se ninguém nunca perguntou, como se pode esperar que a organização os motive e inspire a se tornarem líderes eficazes?

Cada pessoa é motivada por fatores diferentes. Sem entender essas motivações, é muito difícil liderar. Esse é um dos motivos pelos quais muitos programas de desenvolvimento de liderança em organizações não são eficazes. Esses programas frequentemente focam no que a empresa precisa, em vez de se preocuparem com o que inspira as pessoas dessa organização.

Os resultados da pesquisa também mostram que os indivíduos não devem esperar que as organizações os desenvolvam como líderes. Cada um deve assumir a responsabilidade por sua própria jornada de liderança, e, para isso, considero a autorreflexão uma ferramenta essencial.

“Só porque você está certo, não significa que as pessoas irão ouvi-lo – seja você respaldado por dados ou não, ainda é necessário construir credibilidade”

Aprenda na prática e, em seguida, reflita sobre o que aconteceu. Nos últimos anos da minha carreira, sempre reservei um tempo toda semana para pensar no que funcionou bem, no que aprendi e no que poderia ter feito de forma diferente. Esse hábito me ajudou muito a continuar aprendendo e evoluindo.

Você já trabalhou para empresas americanas e chinesas. Até que ponto há desafios de liderança diferentes entre os países?

Xinjin – Um dos maiores desafios para muitas multinacionais na China é o desalinhamento entre o que acontece na prática e o que é esperado na matriz da empresa. Por um lado, cada sede tem seus próprios processos e práticas de negócios, mas, por outro, na China tudo parece diferente.

Reduzir essa lacuna é um grande desafio e, no final das contas, trata-se de estabelecer confiança e credibilidade em ambos os lados. O modelo de persuasão de Aristóteles é uma boa referência, pois destaca a necessidade de apelar para a lógica, a emoção e a credibilidade. Só porque você está certo, não significa que as pessoas irão ouvi-lo – seja você respaldado por dados ou não, ainda é necessário construir credibilidade. Além disso, é fundamental se conectar com as pessoas em um nível humano, tanto na matriz quanto na operação local.

Quais são as diferenças nas abordagens de liderança exigidas em grandes multinacionais e pequenas startups?

Xinjin – Em multinacionais, é comum ouvir termos como “mudança e transformação”, mas a realidade é que, embora esses temas sejam amplamente debatidos, efetivar mudanças nesse contexto é extremamente difícil. Já nas startups, é preciso ser mais adaptável e estar pronto para mudar o tempo todo.

“Se um líder for capaz de articular claramente o que mudou e o que se mantém, terá mais credibilidade e será mais eficaz em guiar sua equipe para lidar com incertezas e abraçar mudanças”

Na China, as empresas não costumam falar muito sobre mudança ou estabelecer processos formais para gerenciá-la – elas simplesmente mudam quando necessário, pois encaram isso como parte do processo. Se o ambiente muda, a empresa também deve mudar. Esse mesmo princípio se aplica às startups, onde tanto o ambiente interno como o externo estão em constante evolução, assim como os objetivos de negócios. Por isso, elas precisam ser ágeis e abertas à mudança.

No entanto, independentemente de estar na China ou nos Estados Unidos, ou de liderar uma empresa grande ou pequena, o ponto crucial é que os líderes devem manter clareza sobre o que muda e o que permanece constante. Valores de liderança, propósitos de negócios e princípios fundamentais não costumam mudar, mas a forma como a empresa busca alcançar seus resultados pode. Se um líder for capaz de articular claramente o que mudou e o que se mantém, terá mais credibilidade e será mais eficaz em guiar sua equipe para lidar com incertezas e abraçar mudanças.

Quais são os desafios e oportunidades trazidos pelo aumento da adoção de tecnologia, o uso de IA e o crescimento do trabalho remoto?

Xinjin – A tecnologia torna os processos mais eficazes, mas nem sempre mais eficientes. A transformação digital tem sido uma tendência nos últimos anos, mas um estudo da McKinsey revelou que mais de 70% das iniciativas relacionadas não entregaram os resultados esperados.

Agora estamos vendo um movimento semelhante com a inteligência artificial. Muitas empresas estão tentando adotá-la para aumentar a eficiência, mas a implementação de novas tecnologias geralmente exige mudanças culturais e nos processos de negócios para que os resultados esperados sejam alcançados. E é aí que muitas organizações falham.

Um dos problemas pode ser que, em empresas tradicionais, a alta gestão nem sempre domina a tecnologia. No meu livro, sugeri um programa de mentoria reversa, no qual funcionários mais jovens e familiarizados com tecnologia podem compartilhar seu conhecimento, ajudando a informar melhor a liderança sênior e, ao mesmo tempo, fortalecendo o relacionamento entre os diferentes níveis da empresa.

Como você vê as tendências de liderança evoluindo nos próximos anos?

Xinjin – Em primeiro lugar, acredito que a maioria das empresas ocidentais está muito mais horizontalizada do que há 10 ou 20 anos. As estruturas hierárquicas tradicionais estão dando lugar a um modelo mais matricial, baseado em projetos multidisciplinares. Isso significa que a liderança está cada vez menos ligada ao cargo formal e mais à capacidade de influenciar os outros – inclusive aqueles sobre os quais você não tem autoridade direta. Na China, a maioria das organizações ainda segue um modelo mais hierárquico, mas acredito que isso comece a mudar nos próximos anos.

Em segundo lugar, principalmente nos Estados Unidos, a aceitação do trabalho remoto está crescendo, especialmente no setor de tecnologia e em empresas mais novas. O desafio, nesse caso, é como estabelecer confiança e credibilidade nesse ambiente, além de garantir que as pessoas tenham autonomia para dar o seu melhor, o que pode ser difícil se nunca passaram um tempo juntas no escritório.

Outro problema que surgiu com o tempo está relacionado ao meio pelo qual as mensagens são transmitidas. Desde que o PowerPoint se tornou onipresente no mundo corporativo, a tomada de decisões passou a ser mais influenciada pela forma como a mensagem é apresentada do que pelo mérito do conteúdo em si – o que claramente não é algo positivo. A tecnologia de IA pode ajudar a reverter um pouco essa tendência, facilitando a captura e a comunicação de informações de maneira mais eficaz.

Por fim, a sobrecarga de informações está se tornando um problema crescente e tende a se agravar com a complexidade dos desafios empresariais e das estruturas organizacionais matriciais. Nos próximos anos, acredito que a IA terá um papel fundamental para ajudar os líderes a simplificar processos e manter clareza em um mundo dinâmico e incerto.

Entrevista realizada por Patrick Body.

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Patrick Body é redator da CKGSB Knowledge.