Diplomas obtidos no exterior não oferecem as mesmas oportunidades que ofereciam antigamente.

Quando Diana Li voltou para Xangai depois de concluir o mestrado na Nottingham University, no Reino Unido, ela pensou que a parte mais difícil de sua jornada já havia passado. “Mas depois de vários meses me candidatando a vagas de emprego e tendo entrevistas sem sucesso, percebi que os empregadores não estavam olhando para minhas qualificações e, em vez disso, achavam que eu não tinha experiência”, diz ela.

Durante décadas, os repatriados – conhecidos na China como “hai gui” (“tartarugas marinhas”, expressão usada para designar profissionais que estudaram no exterior e retornaram ao país) – ocuparam uma posição invejável no mercado de trabalho do país. Um diploma de uma universidade respeitada na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos ou na Austrália era frequentemente visto como prova de visão internacional, domínio de idiomas e formação acadêmica de elite. Voltar para casa muitas vezes significava ingressar diretamente em uma posição prestigiosa em empresas multinacionais, instituições financeiras ou empresas estatais. 

No entanto, o mercado de trabalho na China para recém-graduados tem se tornado muito mais competitivo à medida que as universidades nacionais melhoram, que a educação no exterior fica cada vez mais comum e que os empregadores dão maior ênfase às habilidades práticas em vez de apenas à formação acadêmica. 

Embora uma formação internacional ainda ofereça vantagens importantes em muitos setores, os empregadores estão muito mais seletivos em relação a onde os graduados estudaram, o que aprenderam e como essas habilidades se traduzem na economia chinesa em rápida evolução.

“O efeito halo [conceito da psicologia que descreve a tendência de se avaliar algo com base em uma única característica positiva] praticamente desapareceu”, diz Ashley Dudarenok, fundadora da ChoZan, uma consultoria que ajuda marcas globais a entender o mercado chinês. “Dez anos atrás, um diploma estrangeiro era um passaporte para o sucesso. Os empregadores viam ‘os formados no exterior’ como talentos raros que traziam perspectivas globais avançadas. Hoje, essa vantagem é muito mais condicional.”

Da vantagem da elite à qualificação convencional

O entusiasmo da China pela educação no exterior se transformou drasticamente nas últimas duas décadas. As políticas governamentais há muito incentivam os estudantes a estudar no exterior e depois retornar ao país para contribuir com a modernização da China. O aumento da renda familiar, a expansão das oportunidades de bolsas de estudo e o crescente recrutamento internacional de universidades tornaram o estudo no exterior cada vez mais acessível para famílias de classe média.

Embora centenas de milhares de estudantes chineses continuem a partir para universidades no exterior todos os anos, a grande maioria agora retorna ao país após a formatura. De acordo com o Ministério da Educação da China, mais de 80% dos estudantes chineses que estudam no exterior voltam para casa, em comparação com cerca de 30% no início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, o sistema de ensino superior da China se expandiu rapidamente, formando um número recorde de 12,22 milhões de graduados universitários em 2025.

O resultado é um mercado de trabalho muito mais competitivo. O Ministério da Educação da China afirmou que o número de graduados estrangeiros que retornaram à China em 2025 atingiu seu nível mais alto em oito anos, o que significa que os graduados internacionais não são mais uma fonte escassa de talentos, mas estão competindo com um número sem precedentes de graduados nacionais.

“O mercado está saturado”, explica Dudarenok. “Os empregadores se importam menos com o prestígio de uma credencial estrangeira e mais se o candidato entende o ritmo dos negócios na China, tem conexões com o setor local e pode contribuir imediatamente.”

Os empregadores estão dando maior ênfase à experiência de estágio, à expertise técnica e à familiaridade com o ambiente de negócios da China do que ao nome impresso no diploma.

As universidades nacionais reduziram a diferença

A mudança na percepção do conceito de “hai gui” também reflete o crescente prestígio das universidades chinesas. Instituições como a Tsinghua University, Peking University, Shanghai Jiao Tong University e Zhejiang University figuram consistentemente entre as principais universidades do mundo nas áreas de engenharia, ciência da computação e diversas disciplinas STEM (sigla em inglês que design formação em ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

“A diferença de qualidade entre as universidades chinesas e ocidentais diminuiu significativamente”, afirma Dudarenok. “Um graduado da Tsinghua ou da Shanghai Jiao Tong costuma ser preferido a alguém de uma universidade ocidental de nível médio, porque já demonstrou que consegue ter sucesso no sistema educacional extremamente competitivo da China.”

A professora Shirley Yu, da London School of Economics, acredita que essa mudança vai além dos rankings acadêmicos. “As universidades chinesas se tornaram globalmente competitivas”, afirma. “Os estudantes formados no país também estão mais alinhados com a cultura empresarial chinesa. Eles compreendem o ecossistema econômico chinês de modo mais abrangente.”

Esse alinhamento se tornou cada vez mais valioso para os empregadores à medida que a China busca maior autossuficiência.

“Em muitas áreas das ciências humanas e dos negócios”, diz Yu, “as estruturas ocidentais já não oferecem necessariamente uma vantagem. Em alguns casos, são vistas como menos aplicáveis ​​ao atual modelo de desenvolvimento da China.”

A redução dessa diferença é especialmente visível em setores nos quais a China se tornou líder global. As universidades nacionais agora formam um grande número de profissionais especializados em inteligência artificial, robótica, manufatura avançada e energias renováveis ​​– setores que estão no centro da estratégia industrial de longo prazo da China.

“Na área de IA, de DeepSeek a Manus, o talento nacional se tornou globalmente competitivo”, diz Yu. “Os graduados no exterior já não têm uma vantagem competitiva definitiva.”

“As diferenças começaram a diminuir rapidamente por volta de 2020”, afirma Dan Wang, diretor da Eurasia Group na China. “As universidades chinesas melhoraram significativamente, e os graduados formados no país passaram a entender muito melhor a demanda local. A lacuna de informação que os graduados no exterior antes enfrentavam praticamente desapareceu.”

Um mercado de trabalho diferente

Durante muitos anos, setores como o financeiro, o de consultoria, o imobiliário e as empresas multinacionais recrutaram com entusiasmo graduados com formação internacional. Esses setores valorizavam a experiência adquirida no exterior e frequentemente exigiam ampla comunicação transfronteiriça.

Muitos desses setores desaceleraram, enquanto, ao mesmo tempo, as prioridades econômicas da China se voltaram para a manufatura avançada, semicondutores, inteligência artificial e outras tecnologias estratégicas. Simultaneamente, nos últimos anos, muitas empresas multinacionais reduziram suas operações na China, resultando em um menor número de funcionários.

“Os setores tradicionais que absorviam graduados estrangeiros estão em contração desde aproximadamente 2021”, diz Wang. “Finanças, TI, mercado imobiliário e educação passaram por ajustes significativos.” 

As empresas estão cada vez mais buscando graduados que já possuam experiência de estágio local, compreendam os sistemas regulatórios nacionais e possam começar a contribuir imediatamente.

“A maior desvantagem muitas vezes não é a capacidade acadêmica”, diz Dudarenok. “É a falta de experiência local.”

Muitos graduados estrangeiros enfrentam dificuldades justamente porque passaram vários anos importantes de sua formação fora da China, enquanto seus colegas chineses construíram redes profissionais por meio de estágios e programas de recrutamento em universidades.

Em vez de encarar a educação no exterior como um substituto para a experiência prática, os empregadores esperam cada vez mais que os graduados demonstrem ambas. Essa mudança de mentalidade gerou um mercado de trabalho mais complexo, no qual a educação internacional continua sendo valiosa, mas raramente suficiente por si só.

Onde a experiência internacional ainda faz a diferença

Apesar do cenário em constante mudança, poucos especialistas acreditam que a educação no exterior tenha perdido completamente seu valor. Pelo contrário, suas vantagens se tornaram mais específicas, valorizando graduados que possuem conhecimentos técnicos raros, experiência em negócios internacionais ou genuínas habilidades interculturais, em vez de simplesmente um diploma estrangeiro.

“Alguém com diploma estrangeiro e experiência em uma instituição de pesquisa renomada ou em uma grande empresa internacional ainda tem grande peso no mercado de trabalho nacional”, diz Wang. “Essas pessoas continuam sendo relativamente raras porque possuem vantagens tecnológicas ou habilidades especializadas que a China ainda precisa.”

Isso é particularmente verdade em setores alinhados com as ambições industriais da China. Yu afirma que os graduados no exterior continuam a desfrutar de oportunidades em disciplinas STEM que apoiam as prioridades estratégicas da China, incluindo semicondutores, aeroespacial e outras tecnologias de ponta.

“Nas áreas de STEM, particularmente naquelas relacionadas às New Quality Productive Forces (Novas Forças Produtivas de Qualidade) da China, os hai gui ainda são muito requisitados”, diz Yu. “No entanto, essa janela de oportunidade irá se estreitar gradualmente à medida que as universidades chinesas continuarem a formar talentos comparáveis.”

A experiência internacional também continua sendo valiosa para empresas chinesas em expansão no exterior. À medida que empresas como BYD, DJI, CATL, Shein e ByteDance continuam a construir operações globais, elas necessitam cada vez mais de gestores capazes de lidar com diferentes sistemas jurídicos, mercados consumidores e culturas empresariais.

“Ao longo de uma trajetória profissional de oito anos, os hai gui ainda tendem a superar seus pares nacionais em termos de crescimento salarial e presença em cargos de alta liderança”, afirma Dudarenok. “Isso é particularmente verdadeiro em funções que exigem comunicação intercultural ou expansão internacional.”

Em vez de desaparecer, portanto, o valor atribuído à educação no exterior parece estar se deslocando do recrutamento de graduados para cargos de liderança em estágios mais avançados da carreira, onde a experiência internacional agrega valor comercial tangível.

Ajustando as expectativas

Para muitos recém-formados, no entanto, a adaptação ao mercado de trabalho atual exige uma revisão significativa de expectativas.

Durante anos, estudar no exterior foi amplamente visto como um caminho para salários mais altos e promoções mais rápidas. Os graduados de hoje estão descobrindo que os empregadores esperam cada vez mais que os estudos no exterior sejam apenas um componente de um conjunto de habilidades muito mais amplo.

“A dura realidade é que muitos recém-formados esperavam salários acima da média, mas essas oportunidades já não existem”, diz Dudarenok. “Eles estão se tornando muito mais pragmáticos, priorizando a estabilidade no emprego e aceitando salários iniciais mais baixos simplesmente para conseguir uma oportunidade no mercado de trabalho.”

Muitos também estão olhando além das maiores cidades da China. À medida que a competição se intensifica em Pequim, Xangai e Shenzhen, um número crescente de pessoas que retornam ao país está explorando oportunidades em cidades menores, onde a escassez de talentos continua mais acentuada e o custo de vida é consideravelmente menor.

Muitos hai gui também enfrentam o que poderia ser descrito como choque cultural de retorno após passarem vários anos no exterior. “Eles geralmente possuem as habilidades técnicas necessárias e falam inglês fluentemente”, diz Wang. “Mas, às vezes, têm dificuldade em entender o que os empregadores chineses realmente esperam.”

O ambiente de trabalho chinês costuma operar em um ritmo mais acelerado e enfatizar mais a flexibilidade, a hierarquia e as longas jornadas de trabalho do que muitos graduados vivenciaram ao estudar no exterior. Conceitos como o “996” – em que os funcionários de algumas empresas chinesas são incentivados a estar no escritório das 9h às 21h, seis dias por semana – são um exemplo claro disso.

“Eles podem esperar limites mais claros entre a vida profissional e a pessoal”, diz Wang. “Isso costuma ser difícil para os empregadores chineses proporcionarem.”

A geopolítica está remodelando as trajetórias de carreira

Além da economia, as mudanças geopolíticas também estão remodelando o papel da educação no exterior. À medida que a competição entre a China e as economias ocidentais se intensifica, a antes fluida movimentação de talentos entre empresas internacionais e chinesas tornou-se mais restrita.

“Antigamente, os graduados podiam transitar entre a China e o exterior ao longo de suas carreiras”, diz Yu. “Hoje, isso está se tornando muito mais difícil.” 

Ela afirma que a divergência tecnológica e institucional significa que as trajetórias de carreira se desenvolvem cada vez mais em ecossistemas separados, em vez de em um único mercado de trabalho global. “O caminho para construir uma carreira que abrangesse a China e o Ocidente está praticamente desaparecendo”, diz ela.

“A separação dos ecossistemas tecnológicos continuará a aumentar”, diz Wang. “Cada vez mais, as pessoas precisam escolher logo no início de suas carreiras em qual sistema desejam se desenvolver.”

Isso não significa que a educação no exterior esteja se tornando irrelevante. Em vez disso, os graduados estão tomando decisões mais ponderadas sobre onde estudar, quais disciplinas cursar e como essas escolhas se encaixam em suas ambições de carreira no longo prazo.

Do prestígio ao propósito

A era em que um diploma estrangeiro, por si só, garantia uma carreira de sucesso na China parece estar chegando ao fim. Os empregadores se tornaram mais seletivos porque têm mais opções. As universidades chinesas agora formam profissionais de nível internacional, enquanto o número recorde de pessoas que retornam do exterior transformou o que antes era uma credencial de elite em uma qualificação comum.

Para graduados no exterior, isso significa que a educação internacional está deixando de ser um atalho e se tornando um ponto de partida. Aqueles que dependem exclusivamente do prestígio de um diploma estrangeiro podem descobrir que o mercado mudou.

“À medida que as empresas chinesas se expandem globalmente, elas ainda precisam de talentos com perspectivas internacionais, habilidades linguísticas e conhecimento técnico”, diz Dudarenok. “O fluxo de profissionais qualificados continuará forte, mas será muito mais direcionado para ciências exatas, IA e manufatura avançada, em vez de cursos de administração em geral.”

CKGSB Knowledge é uma publicação reconhecida na Ásia, na América do Norte e na União Europeia pertencente a a Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), uma escola de negócios de renome, sediada em Pequim, na China.