A China está reforçando uma estratégia que vai além da atração de capital estrangeiro. O país busca empresas capacitadas para participar de suas cadeias produtivas, desenvolver tecnologia, ampliar serviços e conectar o mercado chinês a outras regiões do mundo.
Os números mostram a dimensão desse movimento: no primeiro semestre de 2026, a China já registrou um total de 35 mil novas empresas de capital estrangeiro, crescimento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, em média 4.800 empresas estrangeiras que já estavam no país ampliaram seus investimentos. O investimento estrangeiro direcionado às indústrias de alta tecnologia cresceu 33,2% nesse tempo.
Esse movimento ganha força com a abertura do mercado, os incentivos fiscais, as políticas industriais e a simplificação de processos, além de programas criados pelas próprias províncias e cidades.
Que empresas a China quer atrair?
Segundo Catálogo de Indústrias para Investimento Estrangeiro Incentivado, em vigor desde fevereiro de 2026, ampliou para 1.679 o número de atividades contempladas, sendo 205 a mais que na versão anterior.
A prioridade está em áreas d manufatura avançada, alta tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, economia sustentáve, equipamentos, componentes e matérias-primas estratégicas. Também foram ampliadas as oportunidades para serviços empresariais, tecnologia e pesquisa científica. Em 2025, foram criadas mais de 70 mil empresas de capital estrangeiro na China, um crescimento de 19,1% em relação ao ano anterior.
Ou seja, o movimento não é apenas uma tentativa de trazer grandes multinacionais. Existe também uma política específica para direcionar o investimento estrangeiro em setores considerados importantes para a próxima etapa do desenvolvimento econômico chinês.
O incentivo muda de acordo com o lugar
Uma das características do modelo chinês é que os benefícios não se limitam às políticas nacionais. Províncias, cidades e zonas especiais desenvolvem seus próprios mecanismos para disputar certos tipos de investimento.
Hengqin é um dos exemplos mais interessantes. Ao lado de Macau, a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin combina muito com as políticas de Guangdong, Macau e do governo central para criar um ambiente ideal para instalação e expansão de empresas.
Entre os mecanismos está a política conhecida como “duplo 15%” que consiste em empresas de setores específicos possam ter o imposto de renda corporativo reduzido a 15%, enquanto determinados profissionais qualificados podem receber tratamento fiscal diferenciado sobre a parcela do imposto de renda pessoal que exceda 15%. Há também mecanismos aduaneiros específicos para produtos processados em Hengqin que atendam aos critérios estabelecidos.
A região também direciona incentivos para áreas consideradas estratégicas, incluindo tecnologia, biomedicina, novos materiais, novas energias, inteligência artificial, big data, turismo, comércio e serviços financeiros.
Na prática, isso significa que uma empresa estrangeira não encontra na China um único pacote de incentivos. A localização escolhida pode alterar significativamente as condições tributárias, regulatórias e operacionais do projeto, por isso é sempre bom ficar atento aos detalhes de cada região.
Cidades também criam seus próprios mecanismos para atrair investimento
Esse modelo regional aparece em diferentes partes da China. Além de Hengqin, cidades e zonas econômicas vêm criando políticas próprias para atrair empresas estrangeiras de acordo com suas vocações industriais e tecnológicas.
Hangzhou, por exemplo, reforça sua estratégia para se consolidar como um polo de inteligência artificial, economia digital e inovação. A cidade tem direcionado políticas para empresas de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, software, computação e robótica, combinando apoio à inovação, infraestrutura tecnológica e mecanismos de incentivo para projetos considerados estratégicos. O movimento acompanha a expansão do ecossistema digital da cidade: em 2024, o setor de software e informação de Hangzhou registrou mais de RMB 1,17 trilhão em receitas.
Em Xangai, que utiliza sua estrutura de centro financeiro e empresarial para atrair projetos estrangeiros, especialmente em áreas como serviços, tecnologia, manufatura avançada e pesquisa e desenvolvimento. A lógica é semelhante: além das políticas nacionais, a cidade trabalha com medidas próprias de facilitação, apoio a investimentos e desenvolvimento de setores considerados prioritários.
Em Suzhou, a estratégia está ligada à indústria e às cadeias globais de produção. A cidade e seu parque industrial desenvolveram, ao longo dos anos, um ecossistema voltado para setores como eletrônicos, equipamentos, materiais avançados e biomedicina, tornando a região especialmente relevante para empresas estrangeiras que buscam uma base produtiva na China.
Esses casos ajudam a entender uma característica importante do ambiente de investimento chinês: o incentivo pode mudar bastante conforme o perfil da cidade, o setor da empresa e o tipo de projeto apresentado. Uma empresa de tecnologia pode encontrar condições diferentes em Hangzhou, uma operação industrial pode ter outro conjunto de possibilidades em Suzhou; enquanto negócios voltados a serviços internacionais podem encontrar um ambiente diferente em Xangai ou em regiões conectadas a Macau e Hengqin.
Por isso, para uma empresa estrangeira, analisar apenas os incentivos oferecidos pelo governo central pode ser insuficiente. A escolha da cidade ou da zona de desenvolvimento pode fazer parte da própria estratégia de entrada no mercado chinês.
Macau, Hengqin e a conexão com o Brasil
É nesse ponto que a estratégia de Macau ganha relevância para empresas brasileiras.
O 3.º Plano Quinquenal de Macau (2026–2030), divulgado em agosto de 2026, estabelece entre suas diretrizes a diversificação econômica, o aprofundamento da integração com Hengqin e o fortalecimento da posição de Macau como plataforma de ajuda comercial entre a China e os países de língua portuguesa.
Essa orientação cria um ambiente bem interessante para o Brasil, considerando a posição do país dentro do universo lusófono e sua dimensão econômica de maneira geral.
Um dos instrumentos que fazem parte dessa estratégia é o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola (CECPS), lançado conjuntamente por Macau e pela Zona de Cooperação de Hengqin em 2025.
O CECPS não deve ser entendido simplesmente como um programa de subsídio. Ele funciona como uma estrutura de serviços voltada à internacionalização, capacitado para reunir recursos governamentais, empresas e instituições profissionais para conectar negócios chineses aos mercados de língua portuguesa e espanhola, além de poiar empresas desses mercados interessadas em entrar na China.
Entre suas áreas prioritárias estão economia digital, saúde, manufatura avançada, comércio de matérias-primas, comércio eletrônico transfronteiriço e indústrias culturais e esportivas. O modelo também contempla mecanismos de financiamento, recursos públicos complementares e formação de talentos.
A estrutura já começou a ganhar escala. Em junho de 2026, o CECPS assinou acordos de cooperação para internacionalização com 16 empresas, dentro de uma estratégia de conexão com mercados latino-americanos.
Há ainda um fundo de desenvolvimento econômico e comercial China–Países de Língua Portuguesa/Espanhola com capital inicial de RMB 1 bilhão, previsto nas ações governamentais de Macau.
Mais do que incentivos, uma estratégia de entrada
O movimento chinês deixa uma mensagem clara para empresas que olham para o país apenas como destino de exportação: a China está criando condições para que determinados negócios estejam dentro do seu ecossistema, e não apenas vendendo para ele.
Tributação diferenciada, subsídios, infraestrutura, acesso a cadeias produtivas, serviços especializados e conexões internacionais fazem parte de uma estratégia que varia de acordo com o setor e, principalmente, com a região escolhida.
Para empresas brasileiras, esse cenário abre uma oportunidade que ainda é pouco explorada: encontrar, dentro da própria China, portas de entrada diferentes para um mesmo mercado. Hengqin e Macau são exemplos de como essas conexões podem ser construídas, especialmente para negócios que atuam em setores alinhados às novas prioridades chinesas e que podem se beneficiar da ponte com os mercados de língua portuguesa.
No fim, a questão não é simplesmente se a China oferece incentivos. Ela oferece, mas não da mesma forma para todos. A vantagem está em entender onde estão os incentivos, para quais setores foram desenhados e como eles podem se encaixar na estratégia de cada empresa.
É justamente nessa combinação entre política industrial, território e internacionalização que pode estar uma das próximas oportunidades para os negócios brasileiros na China.
