No último ano a China ampliou sua presença em novos mercados ao redor do mundo. Alguns dados oficiais indicam que o país alcançou um recorde de comércio exterior que vale em média US$ 6,36 trilhões, tendo um crescimento anual de 3,8%, chegando em US$ 3,77 trilhões total de exportações e US$ 2,58 trilhões em importações. Esse é o resultado de uma potência que o comércio chinês, mesmo em meio a diversas tensões geopolíticas, se mantém em seu papel central no sistema econômico internacional.

Em novembro de 2025, as exportações chinesas atingiram cerca de US$ 330,3 bilhões, impulsionadas principalmente por envios para a Europa, parte da Ásia, Austrália, África e América Latina. Por outro lado, as vendas para os Estados Unidos registraram uma grande queda, fazendo com que os impactos diretos da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo seja cada vez mais nítido.

Esse cenário acelerou a estratégia chinesa para diversificar parceiros comerciais, abrindo espaço para o fortalecimento das relações com economias emergentes. o Brasil ocupa uma posição de destaque, pois o país se mantém como um dos principais parceiros comerciais da China no mundo e o maior da América Latina, sendo estratégico tanto como fornecedor de matérias-primas quanto como mercado consumidor e destino de investimentos chineses.

Essa intensificação das relações comerciais Brasil-China representa ganhos econômicos relevantes, pois a China segue como o maior destino das exportações brasileiras, absorvendo volumes expressivos de commodities essenciais como soja, minério de ferro e petróleo bruto. Esse fluxo sustenta ganhos importantes na balança comercial brasileira, contribuindo para a estabilidade das contas externas do país, especialmente em períodos de desaceleração econômica global.

Além das trocas comerciais propriamente ditas, as relações bilaterais vêm se estreitando também no campo do investimento direto. As empresas chinesas estão ampliando sua atuação no Brasil em várias áreas consideradas estratégicas, entre elas energia elétrica, petróleo e gás, mineração, telecomunicações e indústria de transformação. Planejamentos em portos, ferrovias, linhas de transmissão e energias renováveis também consolidam o papel do Brasil como plataforma regional para empresas chinesas na América do Sul.

Ainda se destaca o crescimento da China como fornecedora de produtos industriais e tecnológicos para o Brasil. A chegada de bens industriais, máquinas, veículos elétricos, painéis solares e eletrônicos com maior valor agregado impacta diretamente a modernização da indústria brasileira, o efeito é só de crescimento, e também atiça cada vez mais o debate sobre competitividade, política industrial e reindustrialização no Brasil.

Do ponto de vista geopolítico, o aumento da presença chinesa no Brasil acaba surgindo de um cenário de reorganização das cadeias globais de valor. Brasil se aproveita ao se apresentar como parceiro estratégico da China num contexto de multipolaridade, diversificando suas relações externas e diminuindo sua dependência de mercados tradicionais como Estados Unidos, por exemplo. Esse alinhamento também aumenta o protagonismo brasileiro em fóruns nas negociações comerciais internacionais.

A mudança no perfil econômico da China também vem sendo importante, pois até pouco tempo era considerada apenas como uma “fábrica de produtos baratos” e hoje se mostra como uma economia fundamentada na inovação, tecnologia e em produtos de alto valor agregado, de qualidade que redefinirá a relação bilateral. Para o Brasil, o desafio é agregar mais valor às exportações, ampliar parcerias tecnológicas e industriais, e aproveitar a parceria com a China para impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável e de longo prazo.

Ecos da guerra comercial com os EUA

A disputa comercial entre China e Estados Unidos trouxe tarifas, restrições tecnológicas e pressões geopolíticas. Porém, o que seria um obstáculo acabou se tornando um acelerador para o reposicionamento chinês. Em resposta ao bloqueio de tecnologias e insumos estratégicos, a China ampliou a produção interna, fortaleceu programas de inovação e buscou ampliar acordos com países mais receptivos comercialmente.

Assim, mercados como o brasileiro ganharam mais relevância. A consequência prática é uma presença mais forte de empresas chinesas fora do eixo tradicional de exportação para os EUA, com investimentos que se transformam em fábricas, centros logísticos e desenvolvimento de tecnologias adaptadas ao mercado local.

Brasil, destino estratégico

O Brasil aparece como um dos países que mais se beneficiam dessa nova fase de expansão chinesa, se tornando o terceiro maior destino de investimentos chineses do mundo e o principal destino fora da Europa. O plano de investimento anunciado para 2025, em torno de R$ 27 bilhões, mostra que o Brasil de fato está em posição estratégica para a China, tanto como mercado consumidor quanto como possível plataforma de exportação para a América Latina.

Esses investimentos não ficam restritos a um único setor. Eles estão em indústria automotiva, energia, tecnologia, serviços e alimentação. Com isso, a relação Brasil–China deixa de ser baseada apenas em importações e passa a incluir presença estrutural, gerando empregos e criação de cadeias produtivas locais, fazendo com que o Brasil cresça e evolua mais.

BYD e GWM aumentam produção no Brasil

No mercado de veículos elétricos e híbridos, duas empresas chinesas se destacaram no Brasil, revelando o crescente poder da China na indústria automotiva global como um todo. Por exemplo, em 2025, a BYD inaugurou sua primeira fábrica de automóveis em Camaçari, Bahia, no nordeste do país. O investimento de alto valor, pouco mais de R$ 5 bilhões, com capacidade inicial de 150 mil veículos por ano, tem potencial para gerar cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos.

O novo investimento marca um avanço estratégico no plano de tornar o Brasil um centro regional de produção e exportação de veículos elétricos e híbridos, bem como de baterias e componentes. A longo prazo, a fábrica poderá abastecer não apenas o mercado interno, mas também vários países da América Latina e, talvez, a Europa.

Ao longo de 2025, a BYD ultrapassou 200 mil veículos elétricos já registrados no Brasil, assumindo a liderança na categoria elétrica e mantendo sua posição entre as marcas mais vendidas no varejo português. Globalmente, o desempenho também é muito expressivo: a empresa embarcou uma média de 470 mil veículos somente no primeiro semestre de 2025, fortalecendo ainda mais sua presença global.

A GWM (Great Wall Motors) segue um caminho bem parecido. Em 2025 a empresa abriu sua fábrica em Iracemápolis, interior de São Paulo, com a produção local do modelo Haval H6 GT com um plano inicial de 50.000 veículos por ano, além de um aumento significativo nas vendas brasileiras, com crescimento superior. A iniciativa da  GWM é parte de uma estratégia global ainda maior, com milhares de pontos de venda em mais de 170 mercados, além de exportações acumuladas da ordem de mais de 2 milhões de unidades mundialmente.

A chegada e o crescimento dessas duas grandes marcas demonstram que o Brasil está entrando na rota industrial da inovação chinesa, não apenas como mercado consumidor, mas como um ponto estratégico de produção e exportação. Esse movimento aumenta também a transição da indústria automotiva global para veículos elétricos, com tecnologias limpas, sistemas digitais de gestão e um papel cada vez maior para o país dentro da cadeia de valor internacional.

Tecnologia, serviços e geração de empregos

Além do setor industrial, a China amplia sua presença no Brasil nos setores de tecnologia e serviços urbanos. Empresas chinesas de delivery digital e plataformas logísticas, associadas à digitalização de micro e pequenas empresas, intensificam a concorrência e expandem a oferta de serviços inovadores.

Outro aspecto positivo da parceria foi identificado em estudos sobre o impacto socioeconômico do comércio bilateral: nos últimos anos, a relação com a China foi responsável por um crescimento de 62% nos postos de trabalho formais ligados à exportação brasileira, superando taxas de outros parceiros comerciais tradicionais.

Keeta promete transformação logística

A China também avança no setor de serviços. A Keeta, plataforma global de delivery ligada ao gigante chinês Meituan, chegou ao Brasil com grandes planos que mostram uma disputa direta com os aplicativos já estabelecidos no país como IFood por exemplo. A Meituan anunciou um investimento de cerca de R$ 5,6 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para implementar a Keeta no mercado brasileiro, com foco na construção de uma rede nacional de entregas e de ferramentas digitais voltadas para restaurantes e comerciantes locais. Esse investimento faz parte da expansão da Keeta em território brasileiro, com objetivo de oferecer tecnologia de logística inteligente, sistemas de otimização de rotas e suporte operacional para parceiros e entregadores em várias cidades.

A previsão é de que a Keeta mantenha operações em pelo menos 15 áreas metropolitanas em 2026 e construa uma ampla rede de entregadores, incluindo a contratação de profissionais e possível geração de mais de 100 mil empregos.

A entrada da Keeta reforça a mudança do perfil da China no Brasil: antes vista principalmente como fornecedora de bens industriais, agora também participa do ecossistema de serviços digitais e urbanos do dia a dia, integrando tecnologia avançada ao cotidiano dos consumidores e intensificando a concorrência no setor de delivery, especialmente frente a plataformas como iFood, Rappi e 99Food.

Mixue, CGN, Envision, Union Pay

No mercado de alimentos, a rede chinesa Mixue, conhecida por sorvetes e bebidas como bubble tea, anunciou um investimento de R$ 3,2 bilhões para iniciar e expandir suas operações no Brasil até 2030, com projeção para criar até 25 mil empregos no país. A empresa, que já possui mais de 45 mil unidades em mais de 12 países, também planeja importar frutas brasileiras e produtos como café para sua produção local, fortalecendo a conexão com a agricultura nacional que também é muito forte. Além disso, Mixue pretende comprar em média 550 milhões de dólares em produtos agrícolas brasileiros nos próximos três a cinco anos para abastecer toda sua cadeia global.

Já no setor de energia, várias companhias chinesas estão investindo fortemente em projetos ligados a fontes renováveis e infraestrutura. A CGN está investindo cerca de R$ 3 bilhões na construção de um hub de energia renovável no Piauí, com parques eólicos e solares com grande capacidade instalada, podendo gerar mais de 5 mil empregos na fase de construção. Outra empresa, a Envision, anunciou um aporte de até R$ 5 bilhões para desenvolver no Brasil o primeiro parque industrial focado em tecnologias verdes para produção de hidrogênio verde e combustíveis sustentáveis para aviões.

Migrando para a área de tecnologia financeira, grupos chineses também estão expandindo suas operações no país. A gigante de pagamentos UnionPay, que opera em mais de 180 países, chegou no Brasil em 2025 e esse ano pretende expandir ainda mais, integra seus produtos com o sistema de pagamentos brasileiro, como o Pix, por meio de parcerias com fintechs locais. O objetivo é oferecer cartões e soluções de pagamento alternativas às redes tradicionais, como Visa e Mastercard, e fortalecer a infraestrutura digital de transações financeiras.

Empresas chinesas estão investindo diretamente em setores estratégicos como alimentos e agricultura, energia renovável, tecnologia financeira e manufatura, ajudando a impulsionar a economia local e mostrando que a parceria entre Brasil e China segue se aprofundando e se modernizando.

A parceria China-Brasil deve ganhar ainda mais força

O avanço da China no comércio mundial e no Brasil não é um movimento isolado, mas parte de uma estratégia global construída a longo prazo. O crescimento das exportações, a busca por novos parceiros e o investimento em tecnologia transformarão não apenas mercados, mas também hábitos de consumo e relacionamentos comerciais.

Para o Brasil, esse cenário representa oportunidades e desafios. Há potencial para geração de empregos, modernização industrial e acesso a novas tecnologias. Em contrapartida, aumenta a necessidade de fortalecimento das empresas nacionais para competir com grupos internacionais consolidados. O que se observa, portanto, é o início de um novo capítulo econômico que tende a redefinir a forma como o Brasil se posiciona na economia global.

Marina Miranda é diretora institucional da IEST Group e senior manager do CECPS (Centro de Serviços Econômicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola). Também é embaixadora do Beyond Expo- Macau.