Segundo um estudo publicado em março de 2023 pelo Australian Strategic Policy Institute (ASPI), a China lidera em 53 das 64 tecnologias emergentes consideradas cruciais para o futuro estratégico e econômico global. Esse levantamento abrange áreas como inteligência artificial, computação quântica, defesa, biotecnologia, materiais avançados e energia limpa. O ASPI compilou dados de mais de dois milhões de publicações científicas e patentes para avaliar a capacidade de inovação de cada país.

Esses números colocam a China não apenas como uma potência emergente, mas como o principal polo global de desenvolvimento tecnológico, superando os Estados Unidos em áreas cruciais. A profundidade da pesquisa revela um ecossistema robusto de inovação, impulsionado por investimentos estatais massivos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), universidades técnicas altamente capacitadas, e políticas industriais focadas em liderança estratégica de longo prazo.

Inovação em energia limpa: o caso da energia solar

Dados recentes da Ember mostram que, somente na primeira metade de 2025, a China instalou 256 GW de capacidade solar, sendo mais que o dobro do que o resto do mundo somado. Em comparação, o restante do mundo adicionou apenas 124 GW.

Em 2024, a China já havia instalado 125 GW, o que mostra uma trajetória crescente de investimentos na matriz energética limpa. Isso confirma que o país sai na frente não só na fabricação (com cerca de 80% da produção global de painéis solares), mas também lidera na aplicação doméstica dessas tecnologias.

Além disso, segundo a Bloomberg, a China é responsável por 60% da produção mundial de turbinas eólicas, 70% dos veículos elétricos (EVs) e 75% das baterias do mundo. Essa liderança também se reflete no número de patentes: cerca de 75% das patentes globais relacionadas a energia limpa pertencem a empresas e instituições chinesas.

5G: a conexão global liderada pela China

A China domina a implantação global do 5G, com mais de 3 milhões de antenas instaladas até 2025, representando mais de 60% da infraestrutura mundial, segundo o MIIT e a GSMA Intelligence. A Huawei, maior fornecedora mundial de equipamentos 5G, lidera o mercado, inclusive no Brasil, oferecendo tecnologia acessível e eficiente.

O 5G vai além da internet mais rápida: é essencial para cidades inteligentes, veículos autônomos, agricultura de precisão, fábricas automatizadas e sistemas de saúde remotos. No Brasil, capitais como São Paulo e Brasília já utilizam redes 5G chinesas e o agronegócio começa a explorar seu potencial no campo. Ao controlar infraestrutura e patentes, a China consolida seu papel como pilar da nova era digital global.

Robótica e automação: uma revolução silenciosa

No campo da robótica, dados do relatório IFR World Robotics 2025 indicam que a China possui mais robôs industriais operando do que todo o resto do mundo combinado, com mais de 2 milhões de unidades ativas. Em 2024, o país instalou 295 mil novos robôs, representando 54% de todas as novas unidades globais.

Essa liderança se estende também à produção: pela primeira vez, fabricantes chineses venderam mais robôs no mercado interno do que fornecedores estrangeiros. A participação doméstica saltou de 28% para 57% em uma década, indicando o fortalecimento da indústria nacional. O impacto dessa automação pode ser visto em setores como manufatura, eletrônicos, e até agricultura de precisão, com potencial aplicação futura no Brasil.

A aplicação no Brasil: oportunidades e desafios

Para o Brasil, a hegemonia tecnológica da China representa ao mesmo tempo uma oportunidade e um alerta estratégico. As tecnologias solares chinesas, por exemplo, dominam o mercado brasileiro de painéis fotovoltaicos: mais de 95% dos equipamentos instalados no país são importados da China. Essa dependência permite expandir rapidamente a geração solar a custos relativamente baixos – o que fortalece a transição para uma matriz energética mais limpa e resiliente.

No setor de veículos elétricos, a presença de marcas como BYD tem crescido significativamente, com fábricas em implantação e parcerias com governos locais para eletrificação do transporte público. Isso reduz a dependência de combustíveis fósseis e gera empregos no setor industrial.

Já em áreas como telecomunicações e inteligência artificial, o Brasil utiliza tecnologias chinesas em redes 4G, 5G e em sistemas de videomonitoramento urbano, como os “Cinturões Digitais” em grandes cidades. A cooperação tecnológica entre as duas nações está crescendo, mas ainda dependemos fortemente de importações e transferência de tecnologia, sendo esse um ponto crítico para a nossa autonomia estratégica.

Ultrapassando os Estados Unidos

O domínio da China em ciência e tecnologia não se restringe à aplicação industrial, ele começa na base: pesquisa e inovação. Segundo dados da Bloomberg, a China ultrapassou os Estados Unidos no número total de publicações científicas de alto impacto e patentes em áreas emergentes. A Elsevier e a Scopus indicam que o país asiático já lidera em quantidade de artigos científicos indexados em áreas como inteligência artificial, ciência dos materiais, nanotecnologia e engenharia elétrica.

Entre 2018 e 2022, a China foi responsável por mais de 40% dos artigos mais citados nas áreas tecnológicas estratégicas, segundo o ASPI. Esse número supera a participação dos EUA (cerca de 20%) e mostra um esforço coordenado para se tornar referência em ciência aplicada e pesquisa de fronteira.

A importância global dessa liderança

A ascensão da China como líder global em tecnologia se deve a um conjunto de fatores interligados. Em primeiro lugar, o governo adota políticas industriais proativas e de longo prazo. Planos como “Made in China 2025” e as metas do 14º Plano Quinquenal são exemplos que estabelecem prioridades estratégicas para setores-chave, com subsídios, incentivos fiscais e financiamento direto a empresas e universidades.

Universidades como Tsinghua, Peking e Shanghai Jiao Tong estão entre as mais inovadoras do mundo. Outro fator crucial é a coordenação entre o setor público, privado e militar, permitindo a transição rápida da pesquisa básica para a aplicação comercial e estratégica.

Além disso, a capacidade produtiva em escala global permite à China testar e implementar rapidamente tecnologias em massa, um diferencial crucial em comparação com países onde os ciclos de inovação são mais lentos ou burocráticos.

Por fim, a ascensão tecnológica da China também serve como fonte de inspiração para países em desenvolvimento, como o Brasil. Diante desse novo cenário, é importante que essas nações vejam esse movimento como um estímulo para ampliar seus próprios esforços em ciência, tecnologia e inovação, buscando protagonismo e construindo caminhos próprios dentro da nova ordem global.

Marina Miranda é diretora institucional da IEST Group e senior manager do CECPS (Centro de Serviços Econômicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola). Também é embaixadora do Beyond Expo- Macau.