A relação entre a China e a América Latina (LATAM) evoluiu rapidamente nas últimas duas décadas, passando de uma dinâmica predominantemente baseada em comércio e recursos para uma dinâmica cada vez mais definida por tecnologia, investimento e inovação. À medida que a China busca diversificar suas parcerias globais e expandir sua influência tecnológica, a América Latina emergiu como um parceiro estratégico fundamental, oferecendo um mercado consumidor crescente e recursos vitais.

Ao mesmo tempo, os países latino-americanos buscam a expertise chinesa em áreas como infraestrutura digital, IA, comércio eletrônico e energia verde para modernizar suas economias. Esse engajamento cada vez mais profundo está criando novas oportunidades de colaboração, com empresas chinesas investindo em tudo, desde startups de fintech e serviços em nuvem até cidades inteligentes e fabricação de veículos elétricos em toda a região.

Nesta entrevista, Alessandra Fu discute a necessidade de os países latino-americanos serem proativos em seu relacionamento com a China, os benefícios da profunda expertise tecnológica da China e as áreas em que as empresas chinesas podem se beneficiar de uma maior cocriação com suas contrapartes latino-americanas.

P. Como você vê a evolução do papel da China na definição de estratégias de transformação digital na América Latina?

A. A China se tornou uma referência em transformação digital na América Latina, não apenas por seus enormes investimentos em infraestrutura, mas também pela escala e coerência estratégica de sua evolução digital. O que é particularmente atraente é o planejamento de longo prazo da China, combinado com a execução de curto prazo. Essa abordagem permitiu que a China saltasse de uma economia fortemente baseada na manufatura para uma potência de alta tecnologia.

O sucesso chinês foi construído em ecossistemas apoiados pelo Estado, onde o governo atua como parceiro da iniciativa privada. Esse modelo criou as condições para uma inovação rápida, especialmente em setores como IA, logística e serviços digitais. Na América Latina, estamos começando a ver líderes e delegações viajando à China para entender essa transformação em primeira mão. Mas não se trata apenas de replicar modelos chineses — trata-se de entender a China como um ecossistema complexo e aprender a adaptar esse pensamento localmente.

P. Que lições as empresas latino-americanas podem aprender com a abordagem da China aos ecossistemas baseados em plataformas, como os desenvolvidos pela Alibaba, Tencent e ByteDance? E como essas lições podem ser adaptadas à infraestrutura local, ao comportamento do consumidor e ao ambiente regulatório?

A. A China nos ensina sobre orquestração em escala. Suas plataformas — especialmente aquelas chamadas de “superaplicativos” — oferecem integração perfeita de e-commerce, logística, pagamentos, conteúdo e muito mais. Em contraste, as empresas latino-americanas frequentemente permanecem isoladas, o que limita sua capacidade de criar cadeias de valor reais.

Adaptar esses modelos localmente, no entanto, traz desafios. Diferenças na prontidão da infraestrutura, confiança nos sistemas digitais e ambientes regulatórios podem atrasar o progresso. Na China, os usuários podem precisar apenas de 5 a 10 aplicativos para acessar todas as suas necessidades digitais. Na América Latina, um telefone típico pode ter mais de 100 aplicativos para a mesma gama de serviços. Precisamos pensar não apenas em tecnologia, mas também em como orquestrar ecossistemas digitais que facilitem a vida dos usuários, alinhados às nossas realidades locais.

P. Como as empresas latino-americanas se relacionam com empresas chinesas que operam na região e o que diferencia sua maturidade digital ou modelos de negócios dos concorrentes locais ou americanos/europeus? Quais ajustes culturais ou operacionais foram mais bem-sucedidos em viabilizar essas parcerias?

A. Parcerias bem-sucedidas tendem a surgir quando as empresas realmente integram o entendimento cultural em suas operações. Por exemplo, empresas chinesas como a Midea localizaram sua gestão e cadeias de suprimentos no Brasil, em vez de simplesmente transplantar seu modelo chinês. O mesmo vale para empresas latino-americanas que estão entrando na China — elas estão aprendendo a se adaptar às estruturas de governança, ao ritmo de tomada de decisões e às expectativas dos clientes locais.

As empresas chinesas costumam escalar primeiro e otimizar depois. Essa velocidade e flexibilidade são uma mentalidade distinta. Outra diferença fundamental é a superação de fases tecnológicas. Muitos consumidores passaram da ausência de acesso digital diretamente para experiências mobile-first, ignorando completamente os desktops. Entender esses padrões é essencial ao projetar estratégias localizadas. Superar essas lacunas culturais e operacionais — com empatia e respeito mútuo — é o que faz essas parcerias internacionais funcionarem.

P. De que forma a ênfase da China em IA, automação e serviços em nuvem influenciou as estratégias de inovação empresarial ou o posicionamento de produtos na América Latina? Há setores ou casos de uso específicos em que essa influência foi mais visível ou impactante?

A. A IA já está remodelando as indústrias latino-americanas, e grande parte dessa influência vem de empresas chinesas. O TikTok, por exemplo, revolucionou o consumo de conteúdo, especialmente entre as gerações mais jovens. A BYD está trazendo veículos elétricos com tecnologia de IA para as cidades da América Latina, forçando os municípios a repensar a infraestrutura urbana.

O que faz a China se destacar em IA é que eles não a tratam como uma ferramenta isolada — eles a incorporam em cadeias de valor inteiras. Visitei a State Grid na China, e seu laboratório de IA estava usando ferramentas baseadas em dados para gerenciar o fornecimento de energia nacional, reduzindo os ciclos de manutenção de semanas para meras horas. Esse tipo de impacto e sua confiabilidade, eficiência e escala são o que a América Latina pode aprender. Estamos começando a ver um pensamento semelhante se enraizar aqui, especialmente à medida que avançamos da infraestrutura básica para cidades inteligentes e sistemas autônomos.

P. As empresas chinesas de tecnologia têm se tornado cada vez mais ativas em mercados emergentes. Como as empresas latino-americanas devem encarar essa presença (como competitiva, colaborativa ou ambas) e se posicionar estrategicamente nessa dinâmica?

R. É competitivo e colaborativo. Em setores como fintech e e-commerce, a competição é inevitável. Mas em áreas como energia verde, infraestrutura e conectividade, a colaboração pode oferecer enormes benefícios.

Em vez de ver as empresas chinesas apenas como rivais, as empresas latino-americanas devem se posicionar como cocriadoras. As empresas chinesas geralmente desejam escalar rapidamente, mas carecem de conhecimento cultural ou regulatório local. Ao formar parcerias estratégicas que combinem a escala chinesa com a visão latino-americana, podemos construir modelos híbridos com escala global e enraizamento local.

P. Que papel a América Latina pode desempenhar não apenas como mercado, mas como cocriadora de tecnologia e inovação em parceria com a China?

A. A América Latina tem muito a oferecer como parceira tecnológica. Nossa força em agritech e agricultura sustentável, por exemplo, pode servir de exemplo para a China, que enfrenta desafios climáticos e preocupações com a segurança alimentar. Também nos destacamos nas indústrias criativas — nossa narrativa, produção audiovisual e exportações culturais têm ressonância global e podem enriquecer as plataformas chinesas focadas no comércio.

Além disso, os modelos financeiros descentralizados da América Latina — como o Nubank ou o Mercado Pago — estão atendendo populações desbancarizadas de maneiras que a China pode aprender. E, no setor de energia limpa, estamos desenvolvendo cadeias de valor em torno de créditos de carbono e biodiversidade que podem complementar as ambições verdes da China.

Em última análise, China e América Latina trazem consigo pontos fortes. A China oferece escala, infraestrutura e profundo conhecimento tecnológico. A América Latina traz criatividade, adaptabilidade e sustentabilidade. Quando colaboramos intencionalmente, o resultado pode ser muito maior do que qualquer uma das regiões conseguiria alcançar sozinha.

P. Como os reguladores e formuladores de políticas latino-americanos estão respondendo ao fluxo de capital chinês e aos investimentos em infraestrutura digital, especialmente em setores como fintech e nuvem? E quais preocupações com governança ou soberania de dados surgiram nesse contexto?

A. As respostas regulatórias variam amplamente na América Latina. Países como Brasil e México têm seus próprios sistemas complexos, o que dificulta a generalização. Uma das maiores preocupações é o excesso de regulamentação, que pode desacelerar a inovação e desestimular startups. Por outro lado, a regulamentação fragmentada ou inconsistente — entre países ou mesmo dentro de estados — aumenta os custos de conformidade e os riscos legais, especialmente para empresas chinesas desconhecedoras do contexto local.

A soberania dos dados também está se tornando uma questão importante. As empresas chinesas estão frequentemente acostumadas a regulamentações centralizadas, enquanto a América Latina lida com sistemas mais fragmentados e politicamente diversos. Preencher essas lacunas exige construir confiança, investir em expertise local e firmar parcerias com organizações especializadas em lidar com essa complexidade.

P. Como você vê a evolução da presença de empresas chinesas na América Latina nos próximos cinco a dez anos?

A. Olhando para o futuro, vejo a relação entre a China e a América Latina se tornando mais profunda e colaborativa. Mas ela deve ser construída com base na intenção, não apenas permitindo que empresas chinesas operem aqui, mas definindo que tipo de investimento queremos. Isso significa investir não apenas em empregos, mas também em educação, inovação e desenvolvimento sustentável.

À medida que a China busca novos mercados além de suas fronteiras, a América Latina se beneficia — mas somente se formos proativos. Devemos ter como objetivo não apenas acolher empresas chinesas, mas também crescer com elas, aprendendo com sua trajetória de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, permanecendo fiéis às nossas próprias prioridades. Se conseguirmos construir pontes — não apenas transações —, estaremos posicionados para moldar o futuro juntos.

Alessandra Fu Vivian é executiva de tecnologia, conselheira, especialista em gestão e governança e colunista da CKGSB Knowledge Brasil.

CKGSB Knowledge é uma publicação reconhecida na Ásia, na América do Norte e na União Europeia pertencente a a Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), uma escola de negócios de renome, sediada em Pequim, na China.