A rota Brasil-China, com suas escalas estratégicas, oferece um retrato claro das transformações em curso na economia global. Em Doha, o aeroporto Hamad — eleito o melhor do mundo — reflete a ambição do Catar de se consolidar como hub globall, ao unir sofisticação futurista e alta eficiência operacional. Em Hong Kong, a força da engrenagem econômica se evidencia: arranha-céus de última geração abrigam desde grandes conglomerados financeiros até startups de tecnologia em rápido crescimento. Já Macau, com seu charme lusófono, passa por um reposicionamento estratégico — de capital do jogo a polo cultural integrado ao ambicioso plano da Greater Bay Area, que fortalece a China como potência regional e global.

Tive o privilégio de experimentar o futuro da mobilidade quando a Baidu me convidou para testar seu veículo autônomo em Pequim, em 2023. A experiência foi reveladora: a precisão dos sensores LiDAR e a fluidez da inteligência artificial demonstraram como a China está redefinindo a indústria automotiva.

Em maio de 2025, tive a oportunidade de participar da Beyond Expo, uma feira internacional realizada em Macau que se consolida como um dos principais encontros globais de tecnologia. O evento reuniu exposições de ponta, conferências com líderes mundiais e uma intensa agenda de networking entre startups, investidores e grandes corporações. 

A edição daquele ano teve como temas centrais tecnologia sustentável, inteligência artificial, cidades inteligentes, biotecnologia e o futuro da conectividade. No campo da inteligência artificial, por exemplo, foram apresentados modelos de linguagem ainda mais sofisticados, capazes de interações quase humanas, além de assistentes pessoais hiper-realistas e aplicações transformadoras em saúde e educação — como diagnósticos médicos de alta precisão e tutores virtuais personalizados.

Na área de robótica e automação, chamou atenção a presença de robôs humanoides executando tarefas complexas com agilidade, drones autônomos voltados para entregas e monitoramento, e soluções inovadoras voltadas à Indústria 4.0 — que prometem revolucionar a produção em larga escala. 

A energia verde também teve espaço de destaque, com novidades como reatores de fusão nuclear compacta, sistemas baseados em hidrogênio verde e painéis solares de última geração — mais eficientes e acessíveis —, mostrando que um futuro sustentável está mais próximo do que imaginamos.

No setor de realidade expandida, os avanços foram surpreendentes: desde plataformas de metaverso mais imersivas até óculos de realidade mista que unem o digital e o físico, criando experiências incríveis tanto para negócios quanto para entretenimento.

Por fim, as startups globais roubaram a cena com centenas de empreendedores apresentando soluções inovadoras em áreas como fintech, agrotech, biotecnologia e mobilidade urbana, uma prova de que grandes revoluções, muitas vezes, podem começar com ideias disruptivas de pequenas equipes. Um verdadeiro mergulho no futuro, onde cada estande e palestra deixava claro: a tecnologia não está apenas avançando, ela está redefinindo o possível.

A revolução silenciosa: como a robótica chinesa está redefinindo indústrias

A China responde por mais de 50% do mercado global de robôs industriais, mas a verdadeira revolução está na aplicação cotidiana dessa tecnologia, conforme detalho a seguir.

– Na logística: os armazéns da JD.com operam com 90% de automação, enquanto drones da DJI entregam medicamentos em áreas rurais.

– Na medicina: robôs cirúrgicos da Tinavi realizam procedimentos com precisão sub-milimétrica.

– No varejo: lojas autônomas da Alibaba combinam visão computacional e IoT para eliminar caixas.

– Na agricultura: tratores autônomos e drones de pulverização aumentam produtividade em 30%.

O mais impressionante? Tudo isso já está em escala comercial, não são protótipos. Enquanto o Ocidente debate regulamentações, a China implementa.

Segundo dados de 2024 da Federação Internacional de Robótica (IFR), a China instalou mais de 290 mil robôs industriais em um único ano, superando a soma de EUA, Japão e Alemanha juntos. No campo da inteligência artificial, o país já conta com mais de 3.000 startups dedicadas à IA e investe, anualmente, mais de US$ 30 bilhões em pesquisa e desenvolvimento nessa área.

No plano estratégico, o governo chinês mantém metas ambiciosas: até 2030, pretende tornar-se líder mundial em inteligência artificial, com um setor estimado em US$ 1 trilhão. Plataformas como a SenseTime e a Megvii já são líderes globais em reconhecimento facial, enquanto a iFlytek domina o mercado asiático de processamento de voz com aplicações em educação, saúde e governo.

O eixo econômico do século 21: oportunidades para o Brasil

A Ásia responde por 60% do crescimento econômico global, e o Brasil precisa se reposicionar nesse novo tabuleiro. A relação comercial não pode se limitar ao ciclo commodities-manufaturados. Eis as oportunidades mais promissoras: 

Parcerias tecnológicas são um campo fértil para colaboração, já que empresas brasileiras de smart cities podem se beneficiar da experiência chinesa em urbanismo digital. A Huawei, por exemplo, já implanta soluções de IoT em cidades brasileiras, mostrando o potencial dessa sinergia. 

Na transição energética, há espaço para avanços significativos. A BYD, líder em baterias e veículos elétricos, busca parcerias para estabelecer fábricas no Brasil, enquanto o Catar investe pesado em hidrogênio verde, abrindo portas para a cooperação regional. 

O setor de agrotech 4.0 também oferece oportunidades valiosas. A aplicação de drones, inteligência artificial e blockchain na agricultura pode elevar ainda mais a produtividade do agronegócio brasileiro, com o apoio da tecnologia chinesa. 

No campo do turismo de alta renda, Macau e Hong Kong funcionam como portas de entrada para o turista chinês premium, um mercado que cresce 25% ao ano e representa uma chance para o Brasil atrair visitantes de alto poder aquisitivo. 

Por fim, as fintechs e Pagamentos Digitais são outra frente promissora. A experiência chinesa em mobile payments, altamente consolidada, pode acelerar a inclusão financeira no Brasil, modernizando sistemas e ampliando o acesso a serviços bancários.

Hong Kong por exemplo, é um centro próspero para fintech, com mais de 1.100 empresas. Projeta-se que o mercado de fintech da cidade atinja US$ 606 bilhões em receita até 2032, impulsionado por uma taxa de crescimento anual de 28,5%. Esse crescimento é alimentado por um ecossistema dinâmico, incluindo a estratégia “Fintech 2025” da HKMA e a Hong Kong FinTech Week anual.

Diante dessas possibilidades, o Brasil tem a chance de diversificar sua relação com a Ásia, indo além da exportação de commodities e explorando parcerias inovadoras em tecnologia, energia, agronegócio, turismo e finanças digitais.

O futuro vem do Leste: estamos preparados?

Estamos presenciando uma mudança tectônica no centro de gravidade econômico e tecnológico do mundo. A mensagem é clara: o futuro é asiático. Para o Brasil, a escolha não deve ser entre Ocidente ou Oriente, mas, sim, como se integrar de forma inteligente e estratégica aos dois pólos.

As cidades que visitei — como Doha, Hong Kong e Macau — não são apenas destinos emblemáticos. São vitrines vivas de um novo mundo: hiperconectado, tecnologicamente sofisticado e culturalmente plural. Elas representam o ritmo e a ambição de uma nova era global.

O Brasil tem todos os elementos para ser protagonista nessa nova ordem. Mas, para isso, precisará agir com a mesma velocidade e visão que movem os grandes hubs asiáticos. 

A rota para o futuro passa pelo Leste. A questão é: estamos prontos para embarcar?

Marina Miranda é diretora institucional da IEST Group e senior manager do CECPS (Centro de Serviços Econômicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola). Também é embaixadora do Beyond Expo- Macau.