Há uma expectativa silenciosa em muitas análises sobre a China: a de que o desenvolvimento acabará tornando o país mais parecido com as economias ocidentais. A indústria perderia centralidade, os serviços passariam a definir a prosperidade, o consumo assumiria o protagonismo e o Estado reduziria sua presença na organização econômica. Nessa interpretação, modernizar-se significa percorrer um caminho cujo destino já conhecemos. Quanto mais estudo a China, menos essa premissa me parece útil. O país está tentando construir uma forma de prosperidade na qual capacidade industrial, autonomia tecnológica e estabilidade social continuem no centro da vida nacional.
Minha posição é que precisamos levar essa ambição a sério em seus próprios termos. A China tem o direito de formular a pergunta sobre seu futuro a partir de sua história, de sua população e das vulnerabilidades que identifica. Isso exige do observador estrangeiro um deslocamento intelectual: compreender por que determinadas escolhas fazem sentido em Pequim antes de avaliá-las com os critérios de Washington, Londres ou São Paulo. Não há uma única voz chinesa, assim como não existe um Oriente homogêneo. Mas existe uma linguagem de desenvolvimento que organiza a ação do Estado chinês e influencia o ambiente no qual empresas e famílias tomam suas decisões.
Uma expressão central dessa linguagem é desenvolvimento de alta qualidade. Ela pode soar vaga quando atravessa a tradução, mas contém uma mudança importante na pergunta econômica. Durante uma etapa de industrialização e urbanização, ampliar a quantidade de infraestrutura, moradias e bens disponíveis pode produzir ganhos muito elevados. À medida que essa base cresce, a qualidade de sua utilização ganha importância: que conhecimento a economia domina, como utiliza energia, quanto valor consegue gerar e quão vulnerável permanece quando precisa de uma tecnologia que não controla.
Em uma análise publicada pela CKGSB Knowledge Brasil em maio de 2026, a professora Erica Li chamou atenção para a necessidade de interpretar o crescimento à luz do tamanho e do estágio de desenvolvimento alcançados pelo país. Destacou também a mudança em direção a uma avaliação que considere inovação, meio ambiente e condições de vida, além do PIB. Considero esse deslocamento essencial: uma economia não pode ser compreendida apenas pela distância entre sua velocidade atual e a de uma fase excepcional de expansão.
Os indicadores de janeiro a julho de 2026 mostram o quanto essa passagem é desigual. O investimento em ativos fixos, excluídas as famílias rurais, caiu 6,7%, enquanto o investimento imobiliário recuou 19,2%. No mesmo período, o valor adicionado da manufatura de alta tecnologia cresceu 13,8%. Esses dados medem fenômenos diferentes e não permitem concluir que o avanço de um setor compensa automaticamente a perda de outro. Revelam, porém, que fragilidade econômica e construção de novas capacidades estão ocorrendo simultaneamente. Esses números vêm de estatísticas do NBS divulgadas em agosto de 2026.
Vista a partir da lógica chinesa de desenvolvimento, a questão imobiliária possui uma dimensão que a análise de preços dos ativos não esgota. Reconstruir o mesmo ciclo de valorização poderia aliviar balanços, mas também conservar a atração de recursos por uma atividade que já apresenta desequilíbrios. A transição exige estabilizar famílias, empresas e governos locais sem depender indefinidamente da reprodução do motor anterior. Isso ajuda a compreender o dilema político; não significa que toda queda tenha sido desejada ou que todos os seus efeitos estejam sob controle.
Para mim, é particularmente relevante compreender por que a manufatura permanece tão valorizada nessa equação. Uma cadeia industrial reúne mais do que instalações. Ela concentra habilidades de engenharia, fornecedores, conhecimento de materiais, manutenção e capacidade de transformar uma descoberta em produto. Quando o país procura avançar tecnologicamente, essa base pode funcionar como lugar de experimentação e de aprendizagem. Abandoná-la não é necessariamente percebido como sinal de maturidade. Pode significar perder uma parte da competência que torna possível o próximo avanço.
A ideia de novas forças produtivas de qualidade deve ser lida nesse contexto. Em março de 2024, ao discutir o tema com representantes de Jiangsu, Xi Jinping afirmou que o desenvolvimento dessas forças não deveria implicar o abandono das indústrias tradicionais. Também advertiu contra a corrida indiscriminada a projetos e defendeu escolhas ajustadas às condições locais. Orientação sobre inovação e condições regionais. O ponto que retiro dessa formulação é que a transformação pretendida alcança o que já existe. Uma fábrica tradicional pode participar do futuro pela mudança de seus processos, produtos e competências.
Isso modifica o lugar do consumo na discussão. É frequente ouvir que a China precisa consumir mais, como se produzir e consumir fossem escolhas entre as quais bastasse alterar uma preferência nacional. A relação é mais exigente. A renda que sustenta o consumo precisa ser gerada, distribuída e percebida como suficientemente segura. A produção precisa encontrar demanda, e a demanda precisa de condições para continuar existindo. O problema chinês envolve fazer essas relações funcionarem melhor, preservando a capacidade produtiva que o país considera estratégica.
Uma expressão ajuda a entender essa visão: dupla circulação. Apresentada em 2020 e incorporada ao planejamento seguinte, a orientação atribui centralidade ao circuito doméstico e prevê que os circuitos interno e internacional se reforcem. Inclui demanda, cadeias de produção, inovação e circulação de recursos. Eu a interpreto como uma tentativa de tornar a integração internacional menos vulnerável: continuar participando do mundo com uma base interna capaz de sustentar mais etapas da atividade econômica.
Uma empresa pode exportar muito e ainda depender de um componente crítico que não consegue substituir. Um país pode oferecer um mercado enorme e ter dificuldades para fazer renda, capital e oportunidades circularem entre suas regiões. O volume das transações não revela, sozinho, a robustez dessas relações. É por isso que, na leitura chinesa, fortalecer o mercado doméstico pode envolver simultaneamente consumo, infraestrutura, inovação e redução de barreiras internas. Há uma preocupação com o funcionamento do conjunto, mesmo que a implementação permaneça sujeita a interesses e conflitos.
Em julho de 2026, o Conselho de Estado aprovou um plano específico de expansão do consumo para 2026–2030. Entre suas prioridades estão serviços de cuidado a idosos e crianças, saúde, turismo, cultura e educação, além de bens e novas experiências de consumo. Essa agenda merece ser observada pelo que pode representar na vida das famílias. Um serviço de cuidado acessível pode reduzir uma preocupação, liberar tempo para o trabalho e permitir outras escolhas de gasto. O valor econômico nasce também da reorganização dessas condições cotidianas.
Nesse ponto, gosto de prestar atenção à palavra “minsheng”, recorrente no debate público chinês e geralmente traduzida como condições de vida ou bem-estar da população. Na iniciativa “AI Plus”, por exemplo, ela aparece entre os campos prioritários, junto de indústria, ciência, consumo e governança, isso ajuda a enxergar uma ambição que não cabe inteiramente na renda média: tornar a modernização reconhecível no acesso a serviços e nas possibilidades concretas de viver melhor.
É também aí que a ambição encontra seu teste. Uma política pode ser coerente no plano nacional e chegar de maneira muito desigual ao território. O trabalhador que perde espaço em uma atividade não passa automaticamente a integrar outra mais sofisticada. A família que precisa preservar suas economias não altera sua disposição de consumo porque foi anunciado um novo polo industrial. Levar a posição chinesa a sério inclui avaliar se os instrumentos escolhidos conseguem realizar os objetivos que o próprio país enuncia.
Nem coleção de ameaças, nem coleção de soluções
Não considero produtivo acompanhar a China apenas como uma coleção de ameaças aos negócios ocidentais ou de soluções que poderíamos importar. Interessa-me compreender a tentativa de combinar prosperidade, continuidade industrial e maior domínio sobre as condições do desenvolvimento. Essa combinação pode produzir avanços e contradições que nossos modelos de análise não antecipam bem. Para percebê-los, precisamos permitir que a experiência chinesa nos ensine algo antes de submetê-la à conclusão que já trouxemos de casa.
O futuro que a China está tentando construir não se resume a ser mais rica. Na minha leitura, envolve ampliar a capacidade de decidir como produzir, de quais relações depender e que condições oferecer à própria população. Seu êxito terá de ser demonstrado na execução. Mas a pergunta já merece mudar nossa maneira de olhar: para compreender a direção de um país, precisamos conhecer a ideia de desenvolvimento que ele está tentando tornar possível.
