Ao acompanhar as notícias mais recentes sobre inteligência artificial na China, procurei uma relação que costuma desaparecer quando dividimos o noticiário entre tecnologia, resultados financeiros e política internacional. O dinheiro que uma empresa compromete com infraestrutura, os dados que uma região procura organizar e o espaço que um país ocupa na discussão sobre governança pertencem à mesma transformação econômica. Cada decisão interfere em quem poderá produzir com IA, em quanto custará essa produção e em quem terá condições de capturar seus benefícios. Minha leitura do mês é que a China está avançando nessa construção, mas também tornando mais visível a conta que precisará fechar para converter capacidade tecnológica em prosperidade.

Essa conta não cabe no balanço de uma empresa. Para um país que procura ampliar sua autonomia tecnológica e sofisticar sua base produtiva, interessa saber quanto conhecimento permanece no território, quantos setores conseguem utilizá-lo e como a mudança chega à população. Considero legítima essa perspectiva chinesa: o desenvolvimento deve ser avaliado pela capacidade que cria para sustentar a vida econômica do próprio país. O desafio aparece quando os tempos deixam de coincidir. O capital precisa ser comprometido agora; a infraestrutura demora a amadurecer; as empresas usuárias precisam reorganizar suas operações; e os trabalhadores não podem suspender suas necessidades enquanto a transição acontece.

O primeiro sinal de agosto veio dos compromissos financeiros. Em seus resultados divulgados em 12 de agosto, referentes ao segundo trimestre, a Tencent informou despesas de capital de 52,8 bilhões de yuans, crescimento de 176% sobre o mesmo período de 2025. É uma medida do investimento total da companhia, que não deve ser apresentada como gasto exclusivamente em IA. Ainda assim, o salto oferece uma dimensão material da transformação em curso: a expansão digital passa a exigir decisões pesadas sobre capacidade física e recursos de longo prazo. (Confira aqui os resultados do segundo trimestre da Tencent.)

A Alibaba tornou esse compromisso ainda mais explícito. Em 26 de agosto, anunciou a conclusão de uma emissão de novas ações de 80 bilhões de dólares de Hong Kong. Segundo o comunicado da empresa, os recursos líquidos seriam destinados à expansão de infraestrutura computacional global, centros de dados de IA e modernização da nuvem, incluindo armazenamento, bancos de dados e redes. Trata-se de financiamento obtido e de destinação anunciada, não de infraestrutura já entregue. (Eis o comunicado da Alibaba sobre a conclusão da captação.)

Vejo nessa operação uma dimensão da China que análises excessivamente centradas no Estado frequentemente deixam de lado. Uma empresa chinesa recorre ao mercado de capitais para financiar sua ambição tecnológica e assume compromissos perante investidores. A orientação nacional pode favorecer determinadas atividades, mas a decisão empresarial continua envolvendo concorrência, financiamento e expectativa de retorno. Essa convivência ajuda a compreender o funcionamento concreto de uma economia socialista de mercado: direção política e cálculo empresarial se encontram, sem que seus interesses se tornem idênticos.

Também houve evidência de demanda. Nos resultados publicados em 20 de agosto, relativos ao trimestre encerrado em junho, a Alibaba informou crescimento de 45% na receita externa de sua operação de nuvem e expansão de três dígitos na receita de produtos relacionados à IA pelo décimo segundo trimestre consecutivo. Esses números indicam comercialização, embora não demonstrem, por si, a rentabilidade dos projetos dos clientes ou o retorno de todos os investimentos futuros da companhia. (Confira os resultados trimestrais da Alibaba apresentados à SEC, dos EUA.)

Incluindo a política de dados na conversa

Essa distinção é decisiva para a minha interpretação. O fornecedor registra receita quando vende capacidade; o cliente só realiza seu ganho quando consegue transformar essa capacidade em resultado. Entre os dois momentos estão a qualidade dos dados, a revisão do trabalho, a integração com sistemas e a responsabilidade por decisões. Pode haver crescimento vigoroso no mercado de infraestrutura antes que a produtividade se espalhe pela economia. A pergunta que eu faria ao observar a China é quanto dessa expansão está ajudando \as empresas a produzir melhor e quanto ainda depende da expectativa de que elas encontrarão um modo de fazê-lo.

O noticiário de Guiyang, no fim do mês, mostrou por que a política chinesa de dados merece entrar nessa discussão. Na China International Big Data Industry Expo, realizada de 28 a 30 de agosto, o dirigente da Administração Nacional de Dados, Liu Liehong, associou o avanço da IA à construção e à utilização de conjuntos de dados de alta qualidade. Na cobertura publicada em 31 de agosto, a Xinhua apresentou o caso de uma operação energética em Guizhou que integrou dados meteorológicos, hidrológicos e de geração para apoiar o planejamento de diferentes fontes de energia. (Veja a cobertura da Xinhua sobre a exposição de Guiyang.)

O aspecto que mais me interessa nesse exemplo é o trabalho necessário para que uma previsão encontre uma decisão. Uma informação sobre vento não reorganiza a geração elétrica sozinha. Ela precisa fazer sentido para quem opera, chegar a tempo, relacionar-se com outras fontes e entrar em um processo que alguém esteja autorizado a modificar. Quando observo essa cadeia, encontro os fundamentos que considero indispensáveis para extrair valor de IA: dados, contexto, interoperabilidade, orquestração e governança. São condições para que o conhecimento produzido pelo sistema altere o funcionamento da atividade.

A partir dessa notícia, interpreto a agenda chinesa de dados como uma tentativa de ampliar o conjunto de problemas econômicos que a IA consegue alcançar. Existe conhecimento produtivo dentro de fábricas, redes de energia, operações logísticas e serviços públicos que não se torna utilizável apenas porque um modelo ficou mais sofisticado. Organizar esse conhecimento exige investimento e acordos sobre acesso, qualidade e responsabilidade. Quem realiza esse trabalho pode adquirir uma vantagem difícil de reproduzir: a capacidade de aprender com a operação e incorporar o aprendizado à própria operação.

Há uma disputa distributiva dentro dessa construção. Quem produz os dados, quem assume o custo de organizá-los e quem recebe pela aplicação podem ser participantes diferentes. Uma economia de dados que remunere apenas quem fornece o modelo pode enfraquecer os incentivos de quem detém o conhecimento do setor. Para mim, essa é uma questão de política econômica que merece tanta atenção quanto o acesso a chips. O desenvolvimento de IA precisa encontrar formas de reconhecer a contribuição do engenheiro, da empresa industrial, do prestador de serviço e das instituições que tornam possível uma aplicação confiável.

Produtividade para quem precisa (e um contraponto)

A administração pública também apareceu no noticiário do mês como lugar de execução. Em 17 de agosto, o governo de Hong Kong anunciou uma primeira série de 30 projetos de melhoria de eficiência envolvendo 13 departamentos, com implantação gradual iniciada em meados do ano. A iniciativa combina aplicações de IA e reorganização de processos em serviços como licenças, atendimento e análise de demandas. Hong Kong possui um arranjo institucional próprio, e seus resultados não podem ser generalizados para toda a China. O caso, porém, oferece uma evidência concreta de como um governo pode organizar a adoção em torno de serviços definidos. (Para o anúncio do governo de Hong Kong, clique aqui.)

Essa notícia me interessa porque permite discutir produtividade do ponto de vista de quem precisa do serviço. Para uma empresa que aguarda uma autorização, a demora administrativa tem custo econômico. Para uma família, um atendimento que exige menos deslocamentos devolve tempo. Se a adoção de IA melhora essas condições sem comprometer a qualidade da decisão, uma parte de seu retorno aparece fora do orçamento do departamento que implantou a solução. É nessa passagem que a modernização pode ganhar legitimidade cotidiana: quando a população reconhece o benefício na experiência de trabalhar, empreender e acessar serviços.

O mês também trouxe um contraponto à confiança na expansão. Uma investigação da Reuters publicada em 27 de agosto descreveu dificuldades de robôs humanoides chineses para realizar tarefas industriais com autonomia e viabilidade comercial, apesar dos avanços de hardware e do entusiasmo em torno do setor. (Investigação da Reuters sobre a aplicação industrial de humanoides.) Leio esse contraste como uma exigência de discernimento sobre o que está sendo financiado. Desenvolvimento tecnológico envolve aprender antes de alcançar um mercado; o problema surge quando se perde a capacidade de distinguir aprendizagem de repetição improdutiva.

Defendo que uma perspectiva favorável ao desenvolvimento chinês seja também exigente com a qualidade dessa aprendizagem. Um projeto experimental pode justificar recursos se reduz uma incerteza relevante, forma competências ou demonstra por que determinada abordagem precisa mudar. Sua contribuição não depende de parecer pronto em uma apresentação. Mas a continuidade do apoio precisa responder ao que foi aprendido. Quando o anúncio passa a valer mais do que a capacidade construída, a política corre o risco de financiar a aparência da transformação e retirar recursos de iniciativas menos visíveis que poderiam fazê-la avançar.

A relação com o trabalho torna essa exigência ainda maior. Ganhos de eficiência não se convertem automaticamente em renda distribuída, e a criação de novas ocupações não garante que serão acessíveis às mesmas pessoas cujas atividades se transformam. Não extraio das notícias de um mês uma conclusão sobre o saldo líquido de empregos da IA na China. Elas me levam, entretanto, a uma pergunta econômica incontornável: como sustentar a demanda que remunerará a nova capacidade produtiva se parte da população perder segurança sobre sua renda? A transição precisa ser governada também entre setores, regiões e gerações, onde os custos e as oportunidades chegam em momentos diferentes.

Foi significativo, nesse contexto, que Xi’an tenha sediado, em 20 e 21 de agosto, um diálogo sobre IA e desenvolvimento humano organizado pelas Nações Unidas em colaboração com o governo chinês. O encontro integrou uma série que já havia passado pelo Cairo e pela Cidade do México e discutiu efeitos da tecnologia sobre sociedade, cultura e desenvolvimento. Essa agenda não nasceu exclusivamente na China, mas sua realização no país amplia a presença de experiências asiáticas em uma conversa internacional que precisa representar mais do que os interesses dos maiores fornecedores. (Registro do encontro pelo Escritório das Nações Unidas para Parcerias.)

Na coletiva de 24 de agosto, o Ministério das Relações Exteriores chinês reforçou, ao comentar o encontro, sua defesa do papel central da ONU na governança global de IA e de maior atenção aos países em desenvolvimento. (Posição chinesa apresentada após o diálogo de Xi’an.) Minha interpretação é que a China procura ampliar sua influência sobre os critérios pelos quais o avanço tecnológico será julgado. Participar da definição de acesso, capacitação e responsabilidade pode ser tão relevante para a posição de um país quanto desenvolver um modelo competitivo.

A China procura ampliar sua influência sobre os critérios pelos quais o avanço tecnológico será julgado. Participar da definição de acesso, capacitação e responsabilidade pode ser tão relevante para a posição de um país quanto desenvolver um modelo competitivo

Considero essa reivindicação importante para o público ocidental compreender. Um país que ainda precisa ampliar serviços, formar profissionais ou modernizar sua indústria tem razões para avaliar IA pela contribuição que ela oferece a esses objetivos. A governança internacional precisa acolher essa diversidade de necessidades. Ao mesmo tempo, cooperação só produz autonomia quando deixa competências com quem recebe a tecnologia. O teste de uma parceria será a capacidade local de operar, adaptar, fiscalizar e escolher seus próximos passos. Esse critério deve valer para fornecedores chineses, americanos ou de qualquer outra origem.

Ao reunir essas notícias recentes, vejo uma China que procura aproximar financiamento, conhecimento produtivo, serviços e participação nas regras internacionais. Não interpreto cada decisão como peça de um comando único: há interesses empresariais, prioridades públicas e experiências locais que podem convergir ou entrar em conflito. O que me parece estratégico é observar se essas relações conseguem fazer a capacidade tecnológica circular e produzir benefícios além dos grupos que a financiam e comercializam. Conseguem?

Então, qual a conta de IA que a China quer fechar? Ela será medida na vida de quem incorpora essa transformação. Haverá mais valor quando: uma empresa industrial conseguir resolver um problema antes inacessível, um trabalhador encontrar condições para participar da mudança e um serviço público devolver tempo à população. É por essa régua que pretendo acompanhar os próximos meses. A ambição tecnológica chinesa merece ser compreendida em seus próprios termos; sua realização dependerá de tornar o desenvolvimento reconhecível para quem precisa viver dele.

Executiva de tecnologia, conselheira e especialista em gestão e governança