“Tudo que vem da China para cá vem grande”. Costumo repetir essa frase quando converso sobre a experiência de atender a empresas chinesas nos últimos anos.
Mesmo atuando em diferentes setores, todas guardam uma semelhança: raramente chegam ao Brasil só para fazer um teste. Ao desembarcarem por aqui, trazem planos ambiciosos, investimentos relevantes e visão de longo prazo. Minha experiência, que inclui ainda companhias do Sudeste Asiático, mostra que esse apetite se revela também na forma como estruturam equipes, desenvolvem lideranças e atraem talentos.
Pode soar trivial, mas não é. Internacionalizar uma operação não significa só abrir escritórios em outro país, mas trabalhar com legislações diferentes, hábitos distintos e formas próprias de organizar equipes e tomar decisões. É justamente por chegarem pensando grande que essas organizações estruturam rapidamente operações robustas e programas consistentes de estágio e trainee. Quem pretende disputar a liderança de mercado entende que formar pessoas não é consequência da expansão, é parte dela.
Esse é o principal aprendizado que colhi ao realizar projetos de recrutamento, seleção e gestão de contratos de jovens aprendizes, estagiários e trainees para empresas como TikTok, 99 Tec, Lenovo, Midea e Keeta. Fazendo esses trabalhos, ficou claro para mim que essas organizações compartilham práticas de gestão de pessoas que podem inspirar empresas brasileiras.
Os dados ditam o ritmo
De partida, preciso dizer que a característica mais marcante dessas empresas é a objetividade. São organizações fortemente orientadas por dados, indicadores e métricas. Em vez de longas discussões baseadas em percepções, as decisões são tomadas a partir de análises apoiadas por informações concretas. As reuniões costumam ser curtas, algumas delas duram no máximo meia hora, sempre com pauta definida e objetivos claros.
É algo que muda completamente a dinâmica do trabalho. Em meio às diferenças entre o mandarim e o português, os dados funcionam como uma linguagem universal. Eles reduzem interpretações subjetivas, facilitam o diálogo entre equipes e aceleram definições. Quando todos analisam os mesmos indicadores, fica mais simples justificar escolhas, estabelecer prioridades e construir confiança.
Essa lógica ajuda a explicar por que essas empresas conseguem decidir tão rapidamente. Aqui no Brasil, há, por vezes, uma percepção comum de que velocidade é sinônimo de improviso. Nossa experiência mostra exatamente o contrário. Antes de iniciar qualquer projeto, as companhias chinesas investem tempo definindo objetivos, responsabilidades, indicadores e critérios de sucesso. Depois disso, dão autonomia para que os parceiros executem seu trabalho, numa lógica que combina disciplina e agilidade.
A cultura também aparece no perfil dos profissionais que essas empresas procuram. Mais do que privilegiar um diploma específico, a escolha dos profissionais leva em consideração características como a aptidão para resolver problemas de maneira estruturada, interpretar indicadores e tomar decisões baseadas em evidências. Muitas vezes, por exemplo, colocam estudantes de engenharia para atuar com recursos humanos, marketing e vendas. Isso é algo que dialoga diretamente com a cultura dessas organizações.
Outro aspecto que chama a atenção é que, apesar das diferenças culturais, essas empresas não enfrentam dificuldades para atrair jovens brasileiros. Pelo contrário. Além da reputação como marcas empregadoras, empresas como TikTok, Lenovo e Keeta despertam interesse entre estudantes e recém-formados por oferecerem oportunidades reais de crescimento em ambientes globais.
Os números ajudam a ilustrar esse fenômeno. Alguns desses programas contaram com a participação de mais de 50 mil pessoas — uma concorrência próxima de mil candidatos por vaga! Como comparação, o vestibular de medicina da Universidade de São Paulo (USP), um dos mais concorridos do Brasil, costuma registrar em média cerca de 115 candidatos por vaga. Administrar um processo seletivo dessa dimensão requer tecnologia, critérios claros e uma gestão humana rigorosa e orientada por dados do começo ao fim.
Flexibilidade é marca importante
À primeira vista, a cultura orientada por indicadores faz com que muitos pensem que as empresas asiáticas são inflexíveis e fechadas aos seus próprios traços de cultura. Não é o que vejo: ao receberem informações consistentes sobre o mercado brasileiro, elas costumam demonstrar grande capacidade de compreensão e adaptação. Acredito que essa flexibilidade seja essencial, pois nenhum modelo funciona globalmente sem ajustes locais.
Em alguns casos, somos nós que precisamos nos adaptar. No relacionamento com o TikTok, por exemplo, toda a comunicação passou a acontecer pelo Lark, plataforma corporativa utilizada pela empresa. Como fornecedores, tivemos de incorporar uma nova ferramenta ao nosso dia a dia para atender aos padrões internacionais do cliente.
Em outros momentos, acontece o movimento inverso. Cabe explicar às organizações quais são as especificidades da legislação brasileira, orientar sobre as diferenças entre programas de estágio e trainee, apresentar as particularidades das universidades e adaptar a comunicação para dialogar com milhares de estudantes espalhados pelo país.
É dessa complementaridade que surgem os melhores resultados. Enquanto multinacionais trazem processos maduros, velocidade de execução, uso intensivo de tecnologia e cultura orientada a dados, parceiros brasileiros como nós contribuem com conhecimento regulatório, domínio do mercado e compreensão das expectativas dos jovens profissionais.
Em vez de depender apenas da contratação de profissionais experientes, muitas dessas empresas chegam ao Brasil estruturando programas robustos de jovem aprendiz, estágio e trainee desde o início de suas operações. E esses programas não existem apenas para preencher vagas. São encarados como estratégia para construir a base que sustentará o crescimento nos próximos anos, formando profissionais alinhados aos objetivos e à cultura.
APRENDI MUITO COM AS EMPRESAS CHINESAS. Convivendo com elas, entendi que internacionalização significa combinar o que cada realidade tem de melhor. Mas a lição que levo mesmo é a de que elas não contratam pessoas apenas para acompanhar a escalada do negócio. Elas formam talentos para torná-la possível.