Quando se fala em fazer negócios com a China, muitos empresários brasileiros ainda associam o país com manufatura, importação e grandes volumes de produção. Embora essa imagem tenha sido verdadeira durante décadas, ela já não representa a realidade de uma economia que se tornou uma das maiores referências mundiais em inovação, tecnologia e empreendedorismo.

Hoje, a China disputa a liderança global em áreas como inteligência artificial, biotecnologia, robótica, mobilidade inteligente, energias renováveis e economia digital. Mais do que desenvolver suas próprias tecnologias, o país também passou a investir fortemente na atração de talentos e startups estrangeiras capazes de contribuir para esse novo momento.

Os “startups challenges”: muito mais do que competições

É nesse contexto que surgem os chamados startup challenges, competições internacionais que parecem apenas concursos de inovação, mas na realidade funcionam como uma importante estratégia de internacionalização. Para startups brasileiras, esses programas podem representar uma das formas mais rápidas e estruturadas de acessar o mercado chinês, conectar-se com investidores, estabelecer parcerias estratégicas e compreender como funciona um dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos do planeta.

Diferentemente de competições tradicionais, os desafios promovidos por governos locais, parques tecnológicos e grandes organizações chinesas têm como objetivo atrair empresas inovadoras para determinadas cidades e regiões do país. A lógica é simples: quanto mais startups de alto potencial uma cidade conseguir atrair, maior será sua capacidade de gerar inovação, empregos qualificados e desenvolvimento econômico. Os governos municipais competem entre si oferecendo incentivos financeiros, infraestrutura, incubação, mentorias e acesso facilitado ao mercado chinês.

Como esses programas funcionam na prática

Participar de um desses programas significa muito mais do que disputar uma premiação. Normalmente, as startups passam por um processo de seleção internacional, apresentam seus projetos para especialistas, investidores e representantes do governo e, caso avancem, participam de eventos presenciais na China. Durante esse processo, as empresas têm acesso a aceleradoras, fundos de investimento, grandes companhias, universidades e centros de pesquisa, criando conexões que dificilmente seriam construídas de outra forma.

Por que essa é uma oportunidade para startups brasileiras?

Para empresas brasileiras, esse modelo é especialmente interessante porque reduz algumas das principais barreiras para entrar na China. Questões como idioma, diferenças culturais, regulamentação e acesso ao mercado costumam ser obstáculos relevantes para quem pretende internacionalizar seus negócios. Os desafios de inovação ajudam justamente a diminuir essa distância, criando um ambiente estruturado para que startups estrangeiras sejam apresentadas ao ecossistema local com apoio institucional.

Desafios: eles colocam startups no radar da China

Entre os programas mais conhecidos está o “ITEC Global Entrepreneurship Competition”, realizado no distrito de Chaoyang, em Pequim. Considerado um dos principais desafios internacionais da China, o programa busca startups de tecnologia com potencial global e oferece premiações que podem chegar a 5 milhões de yuans (aproximadamente US$ 740 mil), além de programas de incubação, apoio para instalação na cidade e acesso a investidores. As áreas prioritárias incluem inteligência artificial, saúde, biotecnologia, economia digital, cidades inteligentes, sustentabilidade e novos materiais. O ITEC integra a Chaoyang International Talent Entrepreneurship Conference, iniciativa criada para atrair empreendedores e pesquisadores internacionais para a capital chinesa.

Outro programa que ganhou grande destaque é o “HICOOL Global Entrepreneurship Competition”, também sediado em Pequim. Muito além de uma competição, o HICOOL tornou-se um amplo ecossistema de inovação que reúne investidores, aceleradoras, universidades, empresas e órgãos governamentais. Todos os anos, milhares de startups de dezenas de países participam da seleção em busca de investimentos, programas de aceleração e oportunidades de expansão na China. O evento HICOOL Global Summit é uma conferência que reúne alguns dos principais atores do ecossistema de inovação chinês e internacional.

Em Shenzhen, cidade reconhecida mundialmente como um dos maiores polos de tecnologia e hardware do planeta, acontece o “Entrepreneurs Next Star & Million Prize Global Challenge”. O programa possui uma das maiores premiações do país, com um fundo superior a 40 milhões de yuans (cerca de US$ 5,9 milhões), mantendo seus esforços em setores considerados estratégicos para o futuro da economia chinesa, como inteligência artificial, robótica, biomedicina, computação avançada, metaverso e tecnologias emergentes. Mais do que o valor financeiro, participar de uma iniciativa sediada em Shenzhen significa estar inserido em um ambiente onde estão empresas como Huawei, Tencent, DJI e BYD, além de milhares de fornecedores e investidores especializados em tecnologia.

Outro exemplo relevante é o “Hangzhou Global Innovation Competition”, voltado principalmente para pesquisadores, mestres e doutores que desejam transformar conhecimento científico em negócios. Realizado em Hangzhou, cidade onde está localizada a Alibaba.com, o programa busca atrair talentos internacionais capazes de desenvolver soluções tecnológicas para o mercado chinês, oferecendo financiamento, apoio para comercialização e integração com o ecossistema local de inovação.

Para startups do Brasil, uma das iniciativas mais interessantes é o “929 Challenge”, que tem como objetivo fortalecer a cooperação entre a China e países de língua portuguesa. O programa aproxima startups, investidores e instituições dos dois lados, criando um ambiente especialmente favorável para empresas brasileiras que desejam explorar oportunidades no mercado chinês.

Na mesma linha está o “Hengqin International Sci-Tech Innovation Competition (HISIC)”. O desafio busca conectar empresas inovadoras de países lusófonos e hispânicos ao ecossistema tecnológico chinês, funcionando como uma ponte entre diferentes mercados.

Além dos desafios organizados por governos locais, existem iniciativas lideradas por organizações privadas com forte presença internacional. Entre essas organizações está a Plug and Play China, por exemplo, que opera programas de inovação aberta conectando startups a grandes empresas, investidores e governos. Embora não funcione exatamente como uma competição, sua atuação representa uma importante oportunidade para que startups brasileiras validem tecnologias e estabeleçam parcerias comerciais dentro da China. Outro exemplo é a Founder’s Lair, plataforma que promove conexões entre empreendedores, investidores e programas de aceleração voltados à expansão internacional.

As conferências onde a inovação acontece

Os desafios de inovação normalmente acontecem em paralelo a grandes conferências internacionais, que se transformaram em pontos de encontro para investidores, empreendedores, universidades, governos e grandes empresas. Entre elas, a Beyond Expo, realizada anualmente em Macau, se tornou uma das principais vitrines da inovação asiática. O evento reúne milhares de participantes de diversos países e combina exposição de startups, palestras, rodadas de negócios e demonstrações de novas tecnologias.

Também merecem destaque o Zhongguancun Forum, em Pequim, considerado um dos principais fóruns de ciência e tecnologia da China; a World Artificial Intelligence Conference (WAIC), em Xangai, dedicada às discussões sobre inteligência artificial; o HICOOL Global Summit e a tradicional China Hi-Tech Fair, realizada em Shenzhen.

Missões empresariais: conhecendo a inovação de perto

A participação brasileira nesses eventos também mudou significativamente nos últimos anos. Até pouco tempo atrás visitar o ecossistema chinês de inovação era uma oportunidade restrita a grandes empresas ou delegações governamentais. Em 2017, quando comecei a organizar as primeiras missões empresariais abertas voltadas para inovação e tecnologia, esse tipo de iniciativa ainda era pouco conhecido entre empreendedores brasileiros. Desde então, o cenário evoluiu rapidamente. Hoje, diversas consultorias, câmaras de comércio, universidades, aceleradoras e organizações privadas promovem missões empresariais para a China, levando empresários interessados em conhecer hubs de inovação, parques tecnológicos, centros de pesquisa, aceleradoras, universidades e grandes empresas chinesas.

Essa expansão reflete a crescente importância da China como destino estratégico para inovação. Se antes as missões tinham foco quase exclusivo em manufatura e comércio exterior, hoje elas abrangem temas como inteligência artificial, agronegócio, saúde, energia limpa, mobilidade, varejo, venture capital, transformação digital e cidades inteligentes. A Beyond Expo se tornou um dos principais destinos dessas delegações, justamente por concentrar, em poucos dias, boa parte do ecossistema de inovação asiático.

Mais do que uma viagem técnica, essas missões funcionam como uma imersão no ambiente de negócios chinês. Os participantes têm a oportunidade de conhecer empresas que estão definindo tendências globais, compreender o funcionamento do mercado local, estabelecer contatos estratégicos e identificar oportunidades de colaboração tecnológica. Para muitas startups brasileiras, participar de uma missão empresarial representa o primeiro passo para construir uma estratégia consistente de internacionalização.

Aproximação maior nos próximos anos? Basta tomar iniciativa

As perspectivas para os próximos anos indicam que essa aproximação tende a se intensificar. A competição global por talentos e inovação faz parte da estratégia de desenvolvimento econômico da China e deve continuar investindo em programas voltados à atração de empresas estrangeiras. Setores como inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia, robótica, sustentabilidade, energia limpa e novos materiais deverão receber investimentos cada vez maiores, ampliando as oportunidades para startups internacionais.

Nesse cenário, desafios de inovação como os listados aqui deixam de ser apenas competições para se consolidarem como uma ferramenta estratégica de entrada no mercado chinês. Eles permitem que empresas brasileiras validem suas tecnologias, estabeleçam relacionamentos com investidores, encontrem parceiros locais e compreendam melhor as demandas de um dos mercados mais sofisticados do mundo.

Para quem deseja construir uma presença consistente na China, participar de um desses programas pode ser o início de uma trajetória muito mais ampla. Em vez de enxergar os desafios apenas como uma disputa por prêmios, vale entender como plataformas de conexão com um ecossistema que reúne governos, universidades, investidores e grandes empresas em torno de um objetivo comum: transformar inovação em negócios.

Para o Brasil, que possui um número crescente de startups com soluções competitivas em áreas como agronegócio, saúde, energia e tecnologia, essa pode ser uma das oportunidades mais relevantes da próxima década para fortalecer sua presença no mercado chinês e ampliar a cooperação em inovação entre os dois países.

A China quer atrair todo o conhecimento que puder

Durante décadas, quando se falava em construir uma carreira internacional em tecnologia, ciência ou inovação, o destino parecia óbvio: o Vale do Silício. O ecossistema norte-americano consolidou sua posição como principal destino para pesquisadores, empreendedores e startups em busca de investimentos, conhecimento e conexões estratégicas. Porém esse cenário começa a se transformar, pois a China deixou de ser apenas um país que investe em infraestrutura e passou a competir pelos profissionais que poderão desenvolver as tecnologias do futuro. A decisão do químico Omar Yaghi, vencedor do Prêmio Nobel de Química de assumir um instituto de pesquisa em inteligência artificial na Universidade de Tsinghua, em Pequim, é apenas um dos exemplos que mostram essa mudança de direção.

A China está focada em construir um ambiente capaz de atrair conhecimento em modo geral. Universidades de excelência, grandes programas de financiamento à pesquisa, ecossistemas de inovação cada vez mais integrados e uma grande aproximação entre academia, governo e iniciativa privada fazem parte dessa estratégia. O resultado é mais do que uma mudança individual, o movimento simboliza uma tendência ainda maior: a China deixou de competir apenas por mercados e passou a disputar, de forma cada vez mais intensa, os melhores talentos do planeta.

Essa mudança de paradigma também deveria provocar uma reflexão nas startups brasileiras. Se alguns dos maiores cientistas do mundo estão enxergando na China um ambiente estratégico para desenvolver pesquisa, criar tecnologia e acelerar inovação, por que tantos empreendedores ainda enxergam o país apenas como um fornecedor de produtos ou uma plataforma de manufatura? A nova competição global não acontece apenas entre empresas, mas entre ecossistemas capazes de atrair conhecimento, investimento e inovação. Nesse contexto, participar dos programas de inovação, das startups challenges e das missões empresariais pode significar muito mais do que acessar um novo mercado: pode ser a oportunidade de fazer parte de um dos maiores movimentos de transformação tecnológica do século XXI e o Brasil não pode ficar de fora dessa.

Marina Miranda é diretora institucional da IEST Group e senior manager do CECPS (Centro de Serviços Econômicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa e Espanhola). Também é embaixadora do Beyond Expo- Macau.