O dólar americano tornou-se mais uma vítima da política econômica recente de Donald Trump. A guerra tarifária e sua postura errática deixaram investidores globais em alerta. Mesmo anteriormente, Trump já havia sinalizado que poderia interferir na independência do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). Dessa maneira, criando incertezas nos mercados e estimulando vendas de ativos em dólar. A queda da moeda gerou preocupações sobre a centralidade do dólar na economia global. No curto prazo, porém, ele deve continuar como principal referência internacional, por uma razão simples: não há substituto imediato. O euro, a libra esterlina e o iene — todos enfraquecidos nos últimos anos — não têm força suficiente. A internacionalização do RMB, embora ascendente, também dificilmente substituirá o dólar no curto prazo.
A médio e longo prazo, entretanto, a posição do dólar pode ser desafiada, e a variável-chave é o desenvolvimento do RMB. Como moeda da segunda maior economia do mundo, ele tem potencial para se tornar internacional. Mas isso dependerá de reformas estruturais dentro da China.
Como o dólar se tornou central
A força de uma moeda está diretamente ligada ao tamanho e ao desenvolvimento da economia de origem. Segundo o Maddison Project Database 2023 (MPD2023, banco de dados históricos internacionais sobre PIB), em 1862 os Estados Unidos ultrapassaram o Reino Unido em produto interno bruto (PIB), medido pela paridade do poder de compra — época em que a libra era dominante.
Apesar disso, Londres continuava sendo o centro financeiro mundial e o Reino Unido ainda detinha vasto império colonial. Só após a Segunda Guerra Mundial o dólar se consolidou.
Em 1944, os EUA reuniram 44 países para criar o sistema de Bretton Woods (acordo monetário internacional que vigorou até 1971), que atrelava o dólar ao ouro e as demais moedas ao dólar. Combinado à força econômica americana no pós-guerra — responsável por 27% do PIB global e por deter 75% das reservas mundiais de ouro em 1950 — o arranjo facilitou a ascensão do dólar americano como referência global.
Mesmo após o fim de Bretton Woods, em 1971, e a adoção do câmbio flutuante em 1973, a centralidade do dólar se manteve e até se reforçou, em parte devido à ascensão de economias emergentes. A China, por exemplo, mantinha em 2025 cerca de US$ 3,2 trilhões em reservas internacionais, sendo US$ 784,3 bilhões investidos em títulos do Tesouro americano.
Vantagens e desvantagens de ser moeda global
Vantagens:
- Lucros obtidos com a emissão da moeda (senhoriagem): embora existam, são relativamente pequenos em relação ao PIB americano.
- Redução do custo de financiamento: investidores estrangeiros mantêm reservas em dólar e compram ativos americanos, especialmente títulos do Tesouro. Desse modo, sustenta demanda e mantém juros baixos.
- Uso geopolítico do sistema financeiro: o dólar, como moeda global, dá aos EUA grande poder nos mercados internacionais. Dessa maneira, permitindo aplicar sanções financeiras a países como Rússia, Irã e Coreia do Norte.
Desvantagem principal:
A sobrevalorização cambial reduz a competitividade da manufatura doméstica, incentivando a migração de indústrias para fora do país e aumentando o déficit comercial. Trump justificou sua política tarifária com a promessa de reverter essa tendência. Porém, a instabilidade gerada por suas medidas tem o efeito oposto: reduz a confiança no dólar.
O caminho para a internacionalização do RMB
A internacionalização do RMB cresceu junto com a economia chinesa, mas ainda está distante do status global do dólar. Para ampliar sua relevância, três condições precisam ser atendidas:
- Remoção dos controles de capital
Para uma moeda se tornar global, é necessário livre conversibilidade. Desse modo, isso exigiria reformar o sistema tributário chinês, hoje ainda muito dependente do imposto de renda das empresas (cerca de 19% da receita do governo em 2024). Porém, se os controles caírem sem ajustes, empresas podem migrar para países com tributação mais favorável. A China deveria depender menos desse imposto e mais do imposto sobre valor agregado (IVA) e do imposto de renda pessoal. Assim já fazem os países europeus. - Abertura e fortalecimento do mercado financeiro
A demanda da internacionalização do RMB exigirá mercados robustos, regulados e transparentes. A experiência dos EUA mostra que os produtos financeiros estão entre as criações mais complexas já desenvolvidas pela humanidade e mercados desenvolvidos são essenciais para sustentar a moeda global.
– Pequenos e médios investidores precisam de proteção contra riscos como insider trading (uso de informação privilegiada para operar no mercado) e manipulação de preços.
– Grandes investidores, mais sofisticados, podem operar sob regras mais flexíveis que incentivem a inovação financeira. - Mudança no papel dos governos locais
Atualmente, governos regionais chineses (prefeituras e províncias) priorizam produção e exportações em detrimento do consumo interno, contribuindo para superávits comerciais persistentes. Para que o RMB circule mais globalmente, a China precisa gerar déficit comercial, como os EUA, ofertando sua moeda ao mundo. Isso implica mudança no papel dos governos locais (prefeituras e províncias na China), essencial para que o país deixe de ser exportador líquido e passe a ter déficit comercial, fornecendo RMB ao mercado global.
Oportunidade estratégica da internacionalização do RMB
Apesar dos desafios, o RMB é o candidato mais plausível a desafiar a hegemonia do dólar. A política americana sob Trump abriu uma janela de oportunidade. Enquanto os EUA recuam no compromisso com a globalização, a China pode acelerar a internacionalização de sua moeda.
O dólar foi crucial para a prosperidade do pós-guerra. Agora, diante de mudanças geopolíticas e econômicas, a trajetória futura pode reservar espaço para que o RMB assuma papel global mais relevante.
