Quando meus pais deixaram Hong Kong nos anos 1970, carregavam pouco mais do que coragem, sonhos e uma visão: recomeçar a vida em um país distante, chamado Brasil. Ambos tinham apenas 16 anos. Meu avô paterno havia perdido esposa e filhos na guerra [a segunda guerra sino-japonesa, de 1937 a 1945], e como muitas famílias que sobreviveram ao sofrimento da ocupação japonesa, viu no Brasil uma chance de reconstrução. Meu pai chegou a Jundiaí, no interior paulista, minha mãe à capital de São Paulo, e depois de se casarem, se estabeleceram em Piracicaba, onde nasci.
A história empreendedora deles é feita de sacrifícios e resiliência. Começaram do zero, empreenderam, erraram, acertaram, e foram abrindo caminho em um país cuja língua, cultura e clima eram completamente diferentes dos da terra natal. Cresci observando essa dedicação silenciosa — e acredito que ela moldou minha própria trajetória profissional.
Minha carreira me levou por três continentes. Já trabalhei nos Emirados Árabes, nos Estados Unidos e, desde 2021, sou parte do grupo Alibaba. E é justamente essa experiência, de ter vivenciado a gestão ocidental e agora a chinesa em empresas do mesmo setor — logística —, que me motiva a compartilhar algumas reflexões na estreia desta coluna.
O ritmo chinês de entrega (e o sentimento de dono)
Uma das maiores diferenças entre trabalhar em uma multinacional ocidental e em uma empresa chinesa está no senso de urgência e na responsabilização. No Brasil, por exemplo, quando um gestor diz “sem pressa”, muitas vezes entendemos que a tarefa pode ser entregue em dois ou três dias. Na China, “sem pressa” significa apenas que você não precisa entregar em cinco minutos — mas, ainda assim, espera-se que esteja resolvido até o fim do dia.
Outro ponto notável é o senso de propriedade. No modelo brasileiro, é comum “ajudar” em uma tarefa. No ambiente chinês, você é o responsável principal pela atividade — e deve mobilizar os recursos necessários para concluí-la com excelência. A ajuda existe, sim, mas você lidera o processo. Isso exige mais autonomia, mais domínio técnico, e, inevitavelmente, uma curva de aprendizado intensa.
O profissional polivalente e que se qualifica continuamente
Nas multinacionais ocidentais, há uma clara divisão de áreas: fiscal, TI [tecnologia da informação], jurídico. Quando surge uma dúvida, você recorre ao especialista. Já nas empresas chinesas, espera-se que você busque aprender. Um gestor chinês provavelmente vai estudar por conta própria, assistir a vídeos, procurar conexões no LinkedIn ou mesmo usar o ChatGPT — mas dificilmente ficará esperando a resposta do “departamento técnico”.
Esse modelo gera um tipo de profissional altamente adaptável, quase autodidata por necessidade. Ao mesmo tempo, exige do colaborador uma mentalidade de melhoria contínua. O que no Brasil seria considerado “um bom trabalho”, na China se transforma em baseline para a próxima meta. A régua sobe constantemente.
Cultura de performance e sacrifício
A cultura 996 (trabalhar das 9h às 21h, 6 dias por semana) é amplamente debatida, criticada, mas ainda praticada em muitos setores da China. Jovens saem de suas cidades para trabalhar nas grandes metrópoles e só voltam para casa nos finais de semana. Isso tem consequências: famílias menores, menos tempo para amigos, hobbies ou happy hours — e um número crescente de “pais de gato”, como se autodenominam os que optam por pets em vez de filhos.
Já no Brasil, mesmo nas empresas mais exigentes, existe uma valorização maior do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. O almoço com colegas, o café da tarde, a conversa fora da agenda. São momentos que também constroem vínculos e cultura organizacional — ainda que, do ponto de vista da eficiência, o modelo chinês provoque resultados de curto prazo mais visíveis.
Duas culturas, dois conjuntos de pontos fortes e fracos
Minha vivência mostra que nem um modelo é melhor que o outro. Ambos têm pontos fortes e limitações. A cultura chinesa valoriza entrega, resiliência e excelência. A brasileira prioriza relações, bem-estar e adaptabilidade. Para líderes globais, aprender a transitar entre esses dois mundos é mais do que uma vantagem competitiva: é uma habilidade essencial.
Nos próximos meses, pretendo usar este espaço para compartilhar histórias, cases, desafios e aprendizados de quem vive entre o Brasil e a China — geograficamente distantes, porém cada vez mais próximos no mundo dos negócios.
