Na manhã seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo, participei de uma videoconferência com o CEO de uma empresa chinesa que avalia investimentos no país.

A pauta era objetiva. Falamos sobre mercado, estrutura de operação, formação de equipe local, parceiros, riscos regulatórios e os desafios naturais de uma empresa chinesa que pretende construir presença relevante no Brasil. O futebol não fazia parte da agenda, mas seria impossível ignorá-lo. Poucas horas antes, a Seleção Brasileira havia sido eliminada, e o assunto dominava conversas, manchetes e grupos de WhatsApp.

Depois de alguns comentários sobre o jogo, o CEO fez uma pergunta aparentemente simples.

“Se o Brasil continua produzindo alguns dos melhores jogadores do mundo, por que já não consegue ganhar uma Copa do Mundo?”

A pergunta parecia sobre futebol. Mas não era.

Enquanto muitos brasileiros discutiam o técnico, a escalação, a CBF, a convocação ou a atuação individual de determinados jogadores, aquele executivo estava olhando para outro problema. Ele não queria encontrar um culpado. Queria entender por que um país que continua produzindo talento extraordinário tem dificuldade em transformar esse talento em desempenho coletivo consistente.

Essa é, no fundo, a mesma pergunta que muitas empresas chinesas precisam fazer antes de investir no Brasil.

Nos últimos anos, acompanhei empresas chinesas chegando ao país em setores como tecnologia, veículos elétricos, energia, varejo, plataformas digitais, manufatura e serviços. Muitas chegam com capital, produto competitivo, capacidade tecnológica e uma velocidade de execução impressionante. Estudam impostos, logística, canais de venda, regulação e consumidores. Tudo isso importa. Mas, depois de algum tempo, descobrem que o maior desafio não é apenas entender o mercado brasileiro.

É construir uma organização brasileira.

Essa distinção é importante. Contratar bons profissionais brasileiros não é a mesma coisa que construir uma equipe capaz de executar com consistência. Da mesma forma, reunir grandes jogadores não significa formar uma seleção campeã.

A Seleção Brasileira talvez seja um dos estudos de caso mais interessantes para entender esse desafio. Ao longo das últimas duas décadas, o Brasil não deixou de produzir jogadores relevantes. Pelo contrário. Muitos continuaram brilhando nos maiores clubes da Europa, conquistando títulos nacionais, Champions League e posições de destaque no futebol mundial. O mesmo jogador que parece insuficiente na Seleção pode ser decisivo em um clube europeu de elite.

O talento não desaparece quando ele troca de camisa. O sistema ao redor dele é que muda.

Em um grande clube europeu, há rotina diária, papéis claros, cultura consolidada, liderança estável, cobrança permanente, dados, processos, treinamentos repetidos e uma estrutura inteira desenhada para transformar talento em desempenho. Na Seleção, a lógica é outra. Jogadores chegam de clubes diferentes, países diferentes, culturas táticas diferentes e lideranças diferentes. Treinam juntos por poucos dias, carregam uma pressão emocional enorme e precisam funcionar rapidamente como uma equipe.

Naturalmente, uma Copa do Mundo nunca pode ser explicada por um único fator. Futebol continua sendo um jogo de detalhes, acaso, lesões, decisões individuais e momentos. O ponto aqui não é explicar por que o Brasil perdeu. O ponto é entender por que um CEO chinês, acostumado a pensar em construção de organizações, olhou para a mesma história e fez uma pergunta diferente.

Para empresas chinesas que chegam ao Brasil, essa pergunta é decisiva.

Muitos executivos chineses chegam com uma percepção ambígua sobre os profissionais brasileiros. Reconhecem criatividade, inteligência, capacidade de comunicação e flexibilidade. Ao mesmo tempo, quando comparam com equipes em Shenzhen, Shanghai ou Hangzhou, podem interpretar o ritmo brasileiro como menor intensidade, menor disciplina ou menor senso de urgência.

É aí que nasce um risco grande de diagnóstico.

A explicação fácil seria dizer que o brasileiro é menos dedicado. Mas essa conclusão não resiste aos fatos. O Brasil produziu empresas como Embraer, WEG, Nubank e tantas outras organizações capazes de competir em ambientes altamente exigentes. Também formou executivos, engenheiros, operadores e empreendedores atuando em empresas globais. O problema, portanto, não é ausência de talento nem necessariamente falta de dedicação.

O problema não é ausência de talento nem necessariamente falta de dedicação. O problema é a interação entre cultura e sistema de gestão

O problema é a interação entre cultura e sistema de gestão.

A China talvez seja o país que mais aperfeiçoou sistemas de execução nas últimas décadas. Velocidade, disciplina operacional, escala, pressão competitiva, resposta rápida ao mercado e melhoria contínua se tornaram parte da cultura empresarial chinesa. Não por acaso, tantas empresas chinesas conseguem crescer em ciclos extremamente curtos e disputar mercados com uma intensidade que surpreende concorrentes estrangeiros.

O Brasil desenvolveu outras competências. Em um ambiente historicamente marcado por instabilidade econômica, complexidade regulatória, volatilidade cambial, criatividade comercial e relações pessoais fortes, o profissional brasileiro aprendeu a se adaptar, improvisar, negociar, construir confiança e encontrar caminhos em contextos pouco lineares.

Essas competências não são inferiores. São diferentes.

O erro de muitas empresas chinesas será tentar transformar brasileiros em chineses. O erro oposto será abrir mão da disciplina de execução que tornou essas empresas competitivas na China. Nenhum dos dois caminhos é suficiente.

As empresas que terão mais chance de sucesso no Brasil serão aquelas capazes de construir uma terceira cultura: uma organização que preserve a ambição, a velocidade e a disciplina chinesas, mas que saiba liberar a criatividade, a autonomia e a capacidade relacional dos brasileiros.

Isso exige mais do que tradução de idioma. Exige tradução de gestão.

Um executivo chinês precisa entender que, no Brasil, confiança não é apenas um elemento social. Muitas vezes, é parte da infraestrutura da execução. Uma equipe brasileira tende a responder melhor quando entende o contexto, o objetivo e a lógica da decisão. Autonomia não deve ser confundida com falta de controle. Quando bem desenhada, pode aumentar responsabilidade. Relação próxima com a liderança não significa informalidade improdutiva. Pode ser o caminho mais rápido para antecipar problemas e corrigir rotas.

Do lado brasileiro, também há um aprendizado claro. Trabalhar com empresas chinesas exige mais clareza, mais objetividade, mais velocidade de resposta e mais disciplina na entrega. Não basta ser criativo. É preciso transformar criatividade em execução. Não basta ter jogo de cintura. É preciso gerar previsibilidade. Não basta explicar que “no Brasil é diferente”. É preciso mostrar como essa diferença pode ser gerida sem comprometer resultado.

Talvez seja isso que brasileiros que trabalham com chineses precisam explicar melhor. O Brasil não é um mercado onde basta importar um modelo pronto. Mas também não é um mercado que aceita baixa exigência como desculpa cultural. O que funciona é uma arquitetura de gestão capaz de conectar padrões chineses de execução com a forma brasileira de mobilizar talento.

É aqui que a metáfora da Seleção volta a fazer sentido.

O Brasil não perdeu relevância por falta de bons jogadores. E empresas chinesas não fracassam no Brasil por falta de bons profissionais locais. O problema aparece quando talento, cultura e sistema não se encaixam. Quando a liderança não traduz expectativas. Quando a equipe local não entende a lógica da matriz. Quando a matriz interpreta diferença cultural como resistência. Quando o time brasileiro interpreta cobrança como desconfiança. Quando os dois lados trabalham próximos no organograma, mas distantes na cabeça.

Investir no Brasil, portanto, não é apenas colocar capital em um mercado promissor. É construir capacidade organizacional em um ambiente culturalmente diferente.

Esse talvez seja o ponto que muitos planos de entrada subestimam. O investimento financeiro aparece na planilha. A fábrica aparece no cronograma. O produto aparece no plano comercial. O parceiro aparece no contrato. Mas a organização, aquela que realmente transforma intenção em resultado, demora mais para ser construída.

E sem ela, mesmo a melhor estratégia pode parecer pior do que realmente é.

A pergunta daquele CEO chinês sobre a Seleção Brasileira era, no fundo, uma pergunta sobre o próprio investimento dele no Brasil. Antes de saber onde contratar, queria entender como talentos brasileiros se organizam. Antes de decidir a estrutura, queria entender como cultura influencia execução. Antes de formar sua equipe, queria entender por que o país do futebol continua produzindo grandes jogadores, mas nem sempre grandes equipes.

Essa é uma pergunta sofisticada. E deveria interessar a qualquer brasileiro que trabalhe com empresas chinesas.

Porque, na prática, o profissional brasileiro que souber responder a essa pergunta terá enorme vantagem. Ele não será apenas alguém que conhece o mercado local. Será alguém capaz de traduzir o Brasil para a China e a China para o Brasil. Alguém capaz de explicar por que certas práticas chinesas precisam ser adaptadas, mas também por que certas práticas brasileiras precisam evoluir. Alguém capaz de construir ponte, não apenas servir de intérprete.

No fim, talvez a maior lição da Seleção Brasileira para as empresas chinesas não seja sobre futebol. É sobre a diferença entre reunir talentos e construir uma organização.

Talento cria possibilidade. Sistema cria repetição. Cultura define como as pessoas se comportam quando ninguém está olhando. Liderança decide se essas forças se somam ou se anulam.

A China ficou extraordinária em construir sistemas. O Brasil continua extraordinário em produzir talentos adaptáveis, criativos e relacionais. Separadas, essas competências têm limites. Juntas, podem criar organizações muito mais fortes do que cada cultura conseguiria produzir sozinha.

Talvez por isso a pergunta daquele CEO tenha ficado comigo.

Porque ela não era apenas sobre por que o Brasil não ganhou outra Copa.

Era sobre algo maior.

Era sobre como transformar talento em resultado.

E essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para qualquer empresa chinesa que queira investir no Brasil.

Oito perguntas que toda empresa deveria fazer antes de construir uma operação Brasil-China

A primeira pergunta não é se o modelo chinês funciona no Brasil. É o que precisa ser traduzido sem perder sua força original. Internacionalizar não é copiar a matriz. É preservar os princípios que geram vantagem competitiva e adaptar a forma como eles são executados localmente.

A segunda é se a empresa está contratando brasileiros ou construindo uma organização brasileira. Ter executivos locais no crachá não significa ter uma cultura local integrada ao processo de decisão.

A terceira é onde a disciplina chinesa deve ser inegociável e onde a flexibilidade brasileira pode gerar vantagem. Nem tudo deve ser adaptado. Nem tudo deve ser imposto. Saber distinguir uma coisa da outra é gestão.

A quarta é como evitar que a operação vire dois times paralelos: o time chinês que decide e o time brasileiro que executa. Quando isso acontece, a empresa perde velocidade, confiança e inteligência local.

A quinta é se os brasileiros entendem claramente o que a matriz chinesa espera. Muitas falhas atribuídas à cultura são, na verdade, falhas de tradução de expectativa.

A sexta é se os chineses entendem o que precisa ser explicado aos brasileiros. Em muitos casos, o problema não é discordância. É falta de contexto.

A sétima é se a empresa está confundindo controle com coordenação. Controle excessivo pode reduzir iniciativa. Coordenação bem desenhada aumenta responsabilidade.

A oitava é talvez a mais importante: que tipo de sistema faz o talento brasileiro entregar seu melhor desempenho sem destruir aquilo que tornou a empresa chinesa competitiva?

Essa é a pergunta que separa presença local de operação vencedora.

In Hsieh é um dos pioneiros do ecommerce no Brasil e principal especialista em negócios digitais entre Brasil e China. Atualmente, acelera negócios chineses no Brasil, com destaque para o social live commerce em parceria com Tiktok Shop, principal lançamento do mercado brasileiro em 2025. Além disso, é parceiro oficial do Alibaba Global Initiative, integrou a equipe que criou o Submarino em 1999 e participou da entrada da Xiaomi na América Latina em 2014.