Tenho um hobby confesso: sou apaixonado por carros. Sempre fui. Cresci em Piracicaba sonhando com modelos que só existiam em revistas importadas — carros com design arrojado, interiores sofisticados, tecnologia embarcada de ponta. Eram acessíveis apenas a uma pequena fatia da população. E esse sonho, durante décadas, ficou represado.

Hoje, com minha vivência dentro do Grupo Alibaba e meu olhar treinado para o mercado chinês, vejo com clareza o que está acontecendo no Brasil: uma virada histórica no mercado automotivo. Os carros chineses chegaram — e chegaram para ficar.

Um mercado que ignorou o consumidor por tempo demais

Por décadas, o mercado automotivo brasileiro foi dominado pelas mesmas montadoras tradicionais, que entregavam versões defasadas de modelos globais, com pouquíssima inovação, a preços crescentes. Alcântara era para quem comprava importado. Telas grandes no painel? Só em modelos premium. Carroçaria com curvas inspiradas em Porsche ou Land Rover? Sonho distante.

O consumidor brasileiro foi, por muitos anos, tratado como cativo. Pagava caro por pouco. E as marcas, sem grande pressão competitiva, tinham pouco incentivo para inovar.

Então a China chegou.

A estratégia chinesa: entregar o que o cliente quer

Quando analisamos a entrada das montadoras chinesas no Brasil, o que chama mais atenção não é o preço — embora ele seja, em média, 30% a 40% mais competitivo do que os modelos equivalentes das marcas tradicionais já estabelecidas no país. O que impressiona mesmo é a entrega de experiência.

Design com curvas inspiradas nas marcas europeias de prestígio. Acabamento interno em Alcântara. Múltiplas telas e de grande porte no cockpit. Portas que se abrem automaticamente. Sistemas de direção semiautônoma. Motores híbridos e elétricos com alta capacidade de autonomia. Tudo isso em modelos acessíveis ao consumidor de classe média.

Esse é o DNA da indústria automotiva chinesa: descobrir o que o cliente deseja, construir isso com excelência e entregar a um preço que expande o mercado. Uma lógica que, para quem convive com a cultura de negócios chinesa, faz todo o sentido. Como descrevi em colunas anteriores, o modelo chinês é orientado para melhoria contínua e elevação constante da régua — e isso se aplica também aos carros.

Números que não mentem

Os dados confirmam o que se vê nas ruas. Em fevereiro de 2026, as vendas de carros chineses no Brasil registraram alta de 73,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a K.LUME Consultoria. A participação de mercado das marcas chinesas saltou de 9,8% em janeiro para 16,3% em fevereiro de 2026 — e as projeções apontam para até 20% de market share ao longo do ano.

No segmento de veículos eletrificados, o domínio é ainda mais expressivo. A BYD lidera entre os elétricos com quase 77% do mercado, e, somadas as demais marcas chinesas como GWM, Caoa Chery, Omoda Jaecoo e GAC, elas respondem por impressionantes 84,4% de todos os elétricos vendidos no Brasil.

Para quem acompanha o mercado global, isso não surpreende. Na Tailândia — país que, assim como o Brasil, foi historicamente dominado pelas japonesas — as marcas chinesas já respondem por 47% do mercado, com cinco delas figurando entre as dez mais vendidas. O Brasil está trilhando um caminho semelhante, com alguns anos de defasagem.

A China que aprende e se adapta

Uma característica que admiro profundamente na estratégia chinesa é a capacidade de adaptação às regras do jogo local. Quando o governo brasileiro alterou as alíquotas de importação — de zero para 10%, depois para 35% — as montadoras não recuaram. Instalaram fábricas.

A BYD inaugurou em outubro de 2025 seu complexo industrial em Camaçari, na Bahia, com investimento de R$ 5,5 bilhões. O complexo, com 4,6 milhões de metros quadrados, é a maior fábrica de veículos elétricos da América Latina e a maior instalação da empresa fora da Ásia. Com capacidade inicial para 150 mil veículos por ano — e metas de chegar a 600 mil — já emprega mais de 1.500 colaboradores e deve gerar mais de 20 mil empregos diretos e indiretos quando estiver em plena operação.

E há um detalhe que resume bem a inteligência estratégica chinesa: instalada no mesmo espaço onde funcionava a fábrica da Ford, que encerrou operações no Brasil em 2021. O que foi abandono virou renascimento.

A GWM, a Caoa Chery e a Geely também avançam com operações locais, encerrando o argumento de que a presença chinesa seria apenas uma importação oportunista. É um projeto de longo prazo.

# A China não domina apenas as marcas chinesas

Há um aspecto dessa história que poucos percebem: a influência chinesa no mercado automotivo global vai muito além das marcas com nomes chineses. A Geely é dona da Volvo e da Lotus. A SAIC controla a MG. O grupo Stellantis — que detém Fiat, Jeep, Ram e Peugeot — tem parceria estratégica com montadoras chinesas. E mesmo a Toyota, símbolo da engenharia japonesa, integra baterias da BYD e da CATL em seus veículos híbridos.

A China não apenas construiu suas próprias marcas. Ela aprendeu com o Ocidente, adquiriu marcas ocidentais, investiu em tecnologia de ponta — e hoje fornece o coração de muitos carros que consumidores do mundo inteiro compram sem saber de sua origem.

O desafio de ser “early adopter”

Para o consumidor brasileiro, essa nova realidade traz uma oportunidade ímpar — mas também um desafio que merece reflexão: o de ser early adopter não apenas de um carro novo, mas de uma nova matriz energética.

Comprar um elétrico ou híbrido chinês hoje significa apostar num ecossistema que ainda está se consolidando no Brasil: infraestrutura de recarga, rede de assistência técnica, valor de revenda. São perguntas legítimas que qualquer comprador deve fazer.

Minha visão: o risco está diminuindo rapidamente. Com fábricas instaladas, redes de concessionárias em expansão e um ecossistema de suporte crescendo a cada mês, o consumidor brasileiro tem hoje condições muito mais favoráveis do que há dois ou três anos para dar esse passo. E quem der primeiro colherá a vantagem de preços de entrada e de se familiarizar com uma tecnologia que, em poucos anos, será o padrão — não a exceção.

# Uma virada de jogo

O que os carros chineses estão fazendo no Brasil é mais do que ganhar marketshare. Estão forçando toda a indústria a evoluir. Já vemos as montadoras tradicionais acelerando lançamentos, revisando estratégias de precificação e investindo em eletrificação — algo que dificilmente aconteceria sem a pressão competitiva vinda do Oriente.

Para o consumidor, é uma era de ouro. Aquele carro com design europeu, interior premium, motor eficiente e preço acessível — que existia apenas no imaginário — está estacionado nas concessionárias das principais cidades do Brasil.

A China evoluiu, aprendeu com o Ocidente e criou um novo mercado. E quem souber aproveitar esse momento — seja como consumidor, investidor ou gestor — terá muito a ganhar.

Diretor de operações do Alibaba Group no Brasil, William Tang é graduado em engenharia mecatrônica/automação pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em gestão de projetos, marketing e com MBA cxecutivo em instituições de ponta.