Esta publicação inaugura a série “China e a corrida global pela IA“, desenvolvida pela Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB). A cada semana, novos artigos assinados por diferentes especialistas e professores da instituição discutem os desdobramentos mais recentes da inteligência artificial, suas implicações globais e o papel desempenhado pelo gigante asiático nessa transformação tecnológica sem precedentes.
O mundo está entrando em um novo momento, em que a inteligência artificial (IA) não é apenas mais uma indústria. Ela está se tornando a espinha dorsal da economia global. A China, antes conhecida principalmente como a fábrica do mundo, agora avança como uma força motriz na revolução da IA, construindo sistemas inteligentes e novas indústrias que moldarão as próximas décadas.
A série “A China e a corrida global da IA”, publicado pela Cheung Kong Graduate School of Business (CKGSB), propõe uma imersão pela acirrada disputa global pela liderança da IA. Artigos assinados por diferentes especialistas analisam como a gigante asiática está usando IA para mudar tudo e em todos os setores, da manufatura e logística, passando pela saúde e varejo, até o comércio global. Também analisam como empresas chinesas – de gigantes consolidadas a startups ágeis – estão usando a IA não apenas para competir internamente, mas também para construir influência e parcerias em todo o mundo.
Impactos da inteligência artificial
“A IA não é mais apenas um setor – é a arquitetura de uma nova economia global. E o papel da China nessa transição é cada vez mais estratégico”, afirma Li Haitao, reitor e professor-titular de finanças da CKGSB
Compreender como a IA está remodelando o próprio trabalho também está entre as discussões apresentadas na série. Alguns empregos desaparecerão, muitos evoluirão e funções inteiramente novas surgirão. Nesse sentido, não são apenas os trabalhadores que precisam se adaptar. Os líderes também precisam repensar como constroem equipes, desenvolvem talentos e navegam em um mundo cada vez mais impulsionado pela IA.
Ademais, claro, não poderiam ficar de fora as análises sobre o papel crescente da China no desenvolvimento da IA de código aberto, seu esforço para trazer máquinas inteligentes para a vida cotidiana e os desafios de equilibrar o crescimento rápido com questões sobre ética, segurança e colaboração global.
A ascensão da globalização impulsionada pela inteligência artificial

A IA está remodelando de forma profunda o cenário econômico mundial. Para Xiang Bing, reitor-fundador da CKGSB e professor de negócios e globalização da China, a chamada Quarta Revolução Industrial – impulsionada por IA, robótica, computação em nuvem e análise de big data – não representa apenas um salto tecnológico. Representa, além disso, uma transformação do modo como o valor é criado, distribuído e sustentado entre setores e fronteiras.
A seguir, Bing apresenta como a IA está mudando o comércio, as cadeias de suprimentos e a geração de valor em todo o mundo.
“As cadeias de valor, os fluxos de comércio e os requisitos para liderança econômica estão sendo redefinidos pelo avanço da IA. Desse modo, o crescimento sólido no futuro dependerá da integração ampla da inteligência artificial. Integração nos modelos de negócio, nas políticas públicas e no desenvolvimento da força de trabalho, acompanhada por maior colaboração internacional e estímulo à inovação.
Atualmente estamos testemunhando um novo paradigma em que a força industrial e a inovação digital da China convergem com oportunidades e responsabilidades globais. Nesse sentido, ela se consolidou como um dos principais atores nesse processo, explorando suas vastas bases de dados, seu ecossistema industrial e uma força de trabalho inovadora.
A globalização na era da IA não é uma escolha — é uma necessidade
Xiang Bing, reitor-fundador da CKGSB e professor de negócios e globalização
O país avança em duas frentes: moderniza sua indústria doméstica enquanto amplia sua presença tecnológica pelo mundo. Essa estratégia dual acelera a transição para uma economia baseada em produção e serviços de maior valor agregado. O movimento que já rendeu avanços significativos, como o desenvolvimento do modelo R1 da DeepSeek.
O DeepSeek estabeleceu um novo marco para a democratização da IA na China e, além disso, para a construção de um ecossistema de inovação globalmente inclusivo.”
Nova estratégia global da China
Por que a IA está no centro dos planos econômicos da China e como ela está alimentando uma nova onda de expansão global? Essa é a pergunta que Li Haitao, reitor e professor catedrático de finanças na CKGSB, busca responder em suas análises sobre a nova estratégia global do gigante asiático.
“Os alicerces da globalização estão passando por uma reestruturação profunda. Para além da liberalização do comércio e dos fluxos de capital, as tecnologias inteligentes estão redefinindo como as nações criam, trocam e capturam valor. Entre elas, a IA ocupa lugar central, impulsionando um novo modelo de inovação e competição transfronteiriça, à medida que se incorpora cada vez mais a hardwares, softwares e serviços.
Atualmente, a IA generativa já está sendo usada para otimizar design, automatizar a logística e aprimorar a experiência do consumidor em escala global. Grandes plataformas multinacionais de tecnologia empregam algoritmos avançados para adaptar serviços a diferentes mercados, respondendo de forma ágil às demandas locais em constante transformação.
Desse modo, a China vem se consolidando como uma força estratégica nessa transformação. Seu papel não se limita à adoção de IA. Além disso, o país exporta suas capacidades de inteligência artificial ao integrá-las em cadeias de fornecimento, infraestrutura digital e ecossistemas comerciais em várias regiões.”
A IA deixou de ser apenas um setor — ela é a arquitetura de uma nova economia global. E o papel da China nessa transição é cada vez mais estratégico
Li Haitao, reitor e professor catedrático de finanças na CKGSB
A globalização liderada pela inteligência artificial
Haitao também explica que o caminho da globalização da China passou por diversas fases. Anteriormente, começou como fabricante de baixo custo, evoluiu para investidora global e exportadora de tecnologia e ideias. Agora entra em uma nova etapa, a da globalização liderada pela IA.
“Empresas de ponta — incluindo as grandes companhias de tecnologia já estabelecidas e uma nova geração de startups de rápido crescimento, os “Seis Tigres da IA” — estão integrando ferramentas e tecnologias de inteligência artificial em setores que vão de veículos elétricos e manufatura inteligente ao comércio eletrônico e fintech.
Diferente de períodos anteriores, marcados sobretudo pela transferência de tecnologia de fora para dentro, essas empresas agora aproveitam a IA para construir sistemas competitivos em nível global e exportá-los.
Companhias como a BYD e a CATL estão incorporando IA em veículos elétricos e sistemas de bateria, o que tem impulsionado sua expansão para a Europa, Sudeste Asiático e América Latina. Ao mesmo tempo, a Shein e o TikTok, da ByteDance, aplicam aprendizado de máquina para personalizar conteúdos globais e gerenciar cadeias de suprimento responsivas. Assim, essa evolução revela que a China está desenvolvendo sua própria abordagem, baseada em escala, dados e agilidade.”

Confira os próximos temas da série “China e a corrida global pela IA”
- “A IA e o futuro do trabalho”. O que a revolução da IA significa para trabalhadores, líderes e as habilidades que mais importarão.
- “Dispositivos inteligentes e máquinas inteligentes”. Como os pontos fortes da indústria chinesa estão impulsionando a IA incorporada e as máquinas inteligentes
- “O movimento de código aberto”. Como as empresas chinesas estão abrindo seus modelos de IA e remodelando a concorrência global.
- “Rumo ao ecossistema global de IA“. Uma análise de como países além da China e dos EUA estão entrando na corrida – e o que vem a seguir.